Quando o medo vira rotina

Há crimes que terminam quando a ocorrência é registrada, a perícia deixa o local e o suspeito é identificado. Há outros que continuam mesmo depois que o silêncio toma conta da cena. O caso de Juares Marques dos Santos, o “Lázaro de Ermida”, pertence à segunda categoria. Neste sábado, 15, completa-se um ano desde a agressão que matou Lucélia Batista Silva. Um ano depois, o homem apontado como responsável pelo feminicídio continua foragido.
E, para quem vive na zona rural de Santo Antônio dos Campos, essa história nunca ficou no passado. Durante meses, moradores relataram invasões, furtos, danos em propriedades e aparições em áreas de mata. A cada nova denúncia, o medo volta. Basta um barulho durante a madrugada, uma porta mexida ou uma movimentação estranha para que uma comunidade inteira se pergunte se ele ainda está por perto.
É esse o ponto que não pode ser ignorado. A Polícia Militar afirma que as buscas continuam e que as denúncias da população são fundamentais para localizar o foragido. A Polícia Civil concluiu o inquérito e a Justiça decretou a prisão. As instituições seguem atuando. Mas o fato concreto permanece: quase um ano depois, Juares ainda não foi encontrado. E, enquanto isso, moradores continuam convivendo com a possibilidade de que o perigo esteja próximo.
O caso também não está isolado. Divinópolis voltou recentemente a ter um suspeito de homicídio procurado pelas forças de segurança. Pedro Henrique Souza Oliveira, de 25 anos, é procurado desde 30 de julho, quando, segundo a investigação, matou Gustavo Rodrigues dos Santos, também de 25 anos, a tiros, no Centro. A Justiça expediu mandado de prisão temporária, mas ele ainda não foi localizado.
São casos diferentes e não devem ser confundidos. Mas deixam uma pergunta incômoda: como fica a população enquanto os suspeitos continuam nas ruas? Porque segurança pública não pode ser medida apenas pelo número de ocorrências ou prisões. Segurança também é poder dormir tranquilo. É uma mulher esperar o ônibus sem olhar para todos os lados. É o morador rural sair de casa sem imaginar quem pode estar escondido próximo à propriedade.
Quando uma comunidade muda seus hábitos por medo, alguma coisa já precisa chamar atenção. O caso de Lucélia é ainda mais doloroso. Conforme apontado pela investigação, a violência contra ela e as filhas teria se prolongado por aproximadamente 15 anos. O feminicídio não surgiu do nada. Foi o desfecho de uma história de violência que cresceu em silêncio.
Essa é uma das maiores lições do caso: muitas vezes, o crime começa muito antes de chegar às páginas dos jornais. Cresce dentro de casa, protegido pelo medo, pela vergonha e pela ausência de denúncia.
Por isso, é fundamental que a população continue informando às forças de segurança qualquer movimentação suspeita. Mas também é fundamental que o poder público mantenha a resposta. Que as buscas não sejam abandonadas. Que cada denúncia seja apurada. Que a investigação avance.
Não se trata de alimentar o medo ou transformar um foragido em personagem. Trata-se justamente do contrário: impedir que o medo vire rotina. Uma comunidade não pode passar um ano olhando para a mata e se perguntando se o perigo ainda está lá.
Neste sábado, quando o calendário marcar um ano da morte de Lucélia, a pergunta não deveria ser apenas onde está o “Lázaro de Ermida”. É também: até quando moradores terão de conviver com essa incerteza? Foragidos precisam ser encontrados. Vítimas precisam de justiça. E a população precisa voltar a sentir que pode viver sem medo. Isso também é segurança pública.
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