As últimas cartadas

Faltam poucos dias para o eleitor mineiro decidir o primeiro capítulo das eleições para o Governo de Minas Gerais. Na reta final, os candidatos não disputam apenas votos. Disputam espaço, exposição e, principalmente, a chance de permanecer vivos até o segundo turno. E, nesse jogo, até uma cadeira vazia em um debate pode ter valor eleitoral.
O debate da Record Minas, na segunda-feira, 21, teve apenas Mateus Simões e Gabriel Azevedo entre os seis candidatos convidados. Cleitinho Azevedo, Patrus Ananias e Alexandre Kalil não participaram. Flávio Roscoe também ficou de fora por estar internado para tratamento de saúde. Dias antes, o debate da TV Alterosa havia reunido apenas Gabriel, Simões e Roscoe.
Gabriel tem razão em um ponto que não deveria ser tratado apenas como estratégia de campanha: fugir dos debates é, sim, uma forma de desrespeitar o eleitor. O debate não existe para beneficiar emissora, adversário ou candidato. Existe para permitir que quem vai votar veja propostas sendo confrontadas, respostas sendo cobradas e posições sendo colocadas à prova. Quem pretende governar Minas precisa estar disposto a falar diante de quem pretende governar.
Mas há também uma explicação eleitoral para as ausências. Quem está na frente tem mais a perder. Uma frase mal colocada, uma resposta atravessada, uma provocação que ganha as redes ou uma cobrança para a qual não se encontra uma boa resposta pode produzir um desgaste maior do que alguns minutos de exposição podem render. Em uma campanha que entra na última curva, o silêncio também pode ser calculado como estratégia.
A pesquisa RealTime Big Data divulgada nesta terça-feira, 21, ajuda a entender o ambiente. Cleitinho aparece com 35% das intenções de voto, Patrus com 19%, enquanto Kalil e Mateus Simões têm 10% cada. Flávio Roscoe registra 8% e Gabriel Azevedo, 6%.
Os números colocam Cleitinho e Patrus encaminhados para a disputa pelo segundo turno, embora uma pesquisa não possa garantir o resultado da eleição. Kalil, com 10%, ainda está na briga. E, para Gabriel, que aparece com 6%, não há espaço para administrar a vantagem de ninguém. É preciso buscar votos onde eles estiverem. É nesse cenário que cada debate se transforma em uma última cartada.
Gabriel comparece, fala, provoca e transforma a ausência dos adversários em assunto. Nos debates, portanto, Kalil está sendo alvo constante com falas com ‘eu sei que você treme’ e ‘caloteiro’. Cleitinho e Patrus também foram questionados e criticados.
Há, portanto, uma ironia nessa reta final. Gabriel cobra presença porque sabe que o eleitor merece o confronto, mas também sabe que uma cadeira vazia oferece a quem está presente a oportunidade de falar sem receber, naquele momento, a resposta de quem foi atacado. Para ele, o debate é simultaneamente exercício democrático e oportunidade de campanha.
Para os candidatos que estão na frente, a conta pode ser outra. Comparecer significa se expor. Não comparecer significa abrir mão do confronto, mas também reduzir o risco de uma fala capaz de alterar uma imagem construída durante toda a campanha. Não é difícil compreender a lógica. Difícil é aceitar que essa lógica possa prevalecer sobre o direito do eleitor de comparar.
Porque, no fim, todos estão fazendo suas últimas contas. Quem lidera tenta preservar. Quem está logo atrás tenta alcançar. Quem ainda está distante precisa acelerar. E os debates, que deveriam ser um dos momentos mais importantes dessa reta final, acabam também se tornando peças desse cálculo.
A eleição, porém, não deveria ser apenas uma partida de xadrez entre candidatos. Há milhões de mineiros do outro lado da tela, tentando decidir quem receberá a responsabilidade de governar um Estado inteiro.
Candidatos podem calcular riscos. Podem escolher estratégias. Podem decidir onde colocar seus esforços. Mas o eleitor também calcula: observa quem aparece, quem responde, quem enfrenta perguntas e quem prefere não estar diante delas.
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