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Editorial

Gesto simples?

Por Gabriela Lara · Redação· 3 min de leitura
Gesto simples?

Em uma época em que, diante de uma situação de perigo, muitas pessoas parecem mais preocupadas em pegar o celular e registrar a cena do que em procurar uma forma de ajudar, uma história ocorrida em Ibirité, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, mostra que ainda existe algo capaz de contrariar essa lógica: a disposição de parar para ajudar alguém.

Uma menina de 12 anos era atacada por um enxame de abelhas na rua, próxima a uma escola. Cercada pelos insetos, chorando, gritando e sem conseguir reagir. Foi quando o motoboy Vinícius Martins de Paulo passou pelo local. Ele poderia ter seguido seu caminho, como outros fizeram. Em vez disso, parou.

Vinícius tentou chamar a menina, percebeu que ela não respondia e se aproximou. Com um desodorante que carregava na moto, tentou afastar as abelhas e puxou a estudante para dentro da escola. Levou cerca de 40 picadas durante o resgate. Depois, pediu que jogassem água sobre a menina e ajudou a afastá-la do enxame.

Não se trata de defender que qualquer pessoa deva se colocar diante de um enxame ou de qualquer outra situação de risco. Há situações em que a atitude mais responsável é manter distância, acionar o socorro e evitar que mais pessoas sejam feridas. O próprio Corpo de Bombeiros orienta sobre os riscos desse tipo de ocorrência.

A questão é outra. É perceber o quanto pode existir distância entre ver o sofrimento de alguém e se importar com ele.

O próprio Vinícius contou que tinham pessoas próximas observando a cena. Não é preciso condenar quem teve medo ou não sabia como proceder. Mas é impossível ignorar o contraste: enquanto alguns passaram, um homem que sequer conhecia aquela adolescente decidiu interromper o próprio caminho para tentar salvá-la.

E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais importante dessa história.

Vinícius contou que pensou nas próprias filhas ao ver a menina naquela situação. Reconheceu nela alguém que poderia ser uma criança de sua própria família. Mas não deveríamos precisar enxergar um filho, uma mãe, um irmão ou alguém próximo para compreender que uma vida desconhecida também tem valor.

A menina precisou ser internada após o ataque. No sábado, 19, apareceu em vídeo agradecendo as mensagens recebidas e dizendo que estava bem e próxima da alta. Enquanto ela se recuperava, Vinícius passou a receber homenagens pela atitude. Ganhou um carro e uma moto em uma ação organizada por influenciadores e foi homenageado pelo Atlético antes da partida contra a Chapecoense, na Arena MRV.

É bonito que uma atitude como essa seja reconhecida. Mas existe algo ainda mais importante nessa história: que ela não seja tratada apenas como um feito extraordinário de um “herói”. Porque ajudar alguém não deveria ser considerado uma característica excepcional da humanidade.

O cotidiano está cheio de situações em que uma pessoa pode precisar da outra. Um acidente, uma queda, alguém passando mal, uma criança perdida, uma vítima pedindo socorro. Nem sempre será possível resolver o problema. Nem sempre será seguro se aproximar. Mas quase sempre existe alguma forma de não simplesmente seguir adiante.

Vivemos cercados por notícias que alimentam a desconfiança, pelo medo de desconhecidos e pela sensação de que cada um precisa cuidar apenas de si. Talvez por isso histórias como a de Vinícius tenham tanta força. Elas interrompem, ainda que por alguns minutos, a ideia de que estamos todos sozinhos.

Ele não conhecia aquela menina. Não tinha obrigação de estar ali. Não sabia exatamente como aquela situação terminaria. Mesmo assim, parou.

E foi justamente essa decisão que fez diferença.

Vinícius escolheu parar. Em um mundo acostumado a olhar através de uma tela, talvez ainda exista uma forma mais humana de enxergar: levantar os olhos do celular, perceber quem está ao lado e, quando for possível, fazer alguma coisa. 


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