Depois do adeus…

O corpo está estirado no chão. Os gritos ecoam pelas ruas. Já não dá mais para voltar no tempo. A escolha foi feita. Do outro lado, o veículo amassado traz em sua lataria a confissão da irresponsabilidade, e escancara a consequência da decisão tomada em atravessar fora da faixa de pedestre, da passarela, quando dirigiu embriagado, em alta velocidade, ou fez aquela ultrapassagem proibida. O adeus veio, e não há consciência pesada neste mundo capaz de fazer o tempo voltar atrás.Tudo é “simples”. É “prático”. Assim como determina a Terceira Lei de Newton, para toda ação há uma reação. Dali para frente é só lidar com as consequências. Dados da Associação Brasileira de Medicina do Tráfego (Abramet) mostram que o Brasil registra mais de 92 mortes por acidentes de trânsito diariamente. Especialistas apontam que, praticamente, tem-se um óbito a cada 15 minutos e um ferido e um sequelado a cada dois. Ou seja, para cada morte no trânsito, é uma média de até dez feridos ou que ficaram com algum tipo de sequela em relação às batidas. O aumento da frota de veículos no país, e outros fatores contribuem para o aumento de acidentes graves no ano, mas nada perde para a imprudência do ser humano.
O que espanta é ver a normalização do cenário. Nem mesmo as atuais leis de trânsito são capazes de inibir a ação de motoristas e pedestres imprudentes. A Lei 13.546/2017 aumentou as penas para condutores que causem lesões graves ou morte por dirigir embriagado, incluindo reclusão e proibição de obter CNH. A Lei 13.599/2018 estabelece punições mais severas para condutores que manusearem celulares enquanto dirigem, incluindo multa e suspensão do direito de dirigir. O uso do cinto de segurança é obrigatório para todos os passageiros e o não cumprimento pode resultar em multa e pontos na carteira. Respeitar os limites de velocidade é fundamental e o excesso pode gerar consequências incalculáveis. Mas nada disso é capaz de fazer com que motoristas e pedestres cumpram o básico, ou deem conta de fazer o mínimo para evitar essas tragédias, que infelizmente se tornaram rotineiras no país. Diante tamanha negligência dos brasileiros, a pergunta que deve ser feita é: adiante fazer a adoção de leis mais severas e lutar para a sua efetiva aplicação, incluindo aumentar as penalidades por infrações graves? Há algum caminho a ser adotado para diminuir o número de acidentes graves no país, quando o principal problema é a imprudência da população, quando não consegue sequer seguir regras básicas?
Existe alguma saída para uma nação que prefere chorar depois do adeus à prevenir? Há alguma solução para um povo que apesar de ter leis e normas que estabeleçam diretrizes mínimas para evitar tragédias, ainda assim prefira o caos, escolha o adeus? Enquanto você lê este artigo uma pessoa morre vítima de acidente de trânsito, e daqui 15 minutos outra morrerá, e dezenas ficarão com sequelas, pelo simples fato de alguém por um segundo ter escolhido ser imprudente. E, perante tudo isso, o questionamento é: de que vale uma lei, se por aqui a população tem preferido o adeus e as lindas homenagens póstumas nas redes sociais?
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
