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Reagir diante do absurdo - Editorial

Por Gabriela Lara · Redação· 3 min de leitura
Reagir diante do absurdo - Editorial

Uma menina de 11 anos deixava a própria casa, no Centro de Divinópolis, quando percebeu que era seguida por um homem de 43 anos. Segundo o relato feito à Polícia Militar, ele carregava uma pedra e tentava se aproximar. A criança correu e procurou ajuda, encontrando um conhecido. A situação chamou a atenção de outras pessoas, que confrontaram o homem diante da suspeita de que ele tivesse cometido algum crime contra a menina.

A partir daí, o caso ganhou outro capítulo. Populares passaram a agredir o homem, que sofreu ferimentos na cabeça, nas mãos e nos olhos. 

Mas o primeiro ponto e o mais importante é o que aconteceu com aquela criança. Uma menina de apenas 11 anos precisou correr para escapar de um adulto que a seguia pelas ruas, segurando uma pedra e tentando se aproximar. É uma situação que naturalmente provoca indignação. 

Nesse caso, houve também a “sorte” de tudo ter acontecido em um espaço público. Havia pessoas na rua. A menina encontrou alguém conhecido. A situação foi percebida e a polícia pôde ser acionada. Mas quantos casos acontecem dentro de uma casa, atrás de uma porta fechada, em um quarto ou em qualquer outro lugar onde ninguém possa perceber o que está acontecendo? Quantas crianças convivem com situações de medo sem conseguir pedir ajuda? E quantas vezes, depois de uma tragédia, surgem relatos de que “todo mundo sabia”, que havia comentários ou que determinada pessoa já despertava desconfiança?

A proteção de crianças não pode depender da sorte de haver alguém olhando.

Por isso, a sociedade precisa estar atenta e reagir diante de situações que possam colocar uma criança em risco. É preciso ouvir, acolher, denunciar e procurar as autoridades. O silêncio, o medo de se envolver ou a ideia de que “não é problema meu” não podem ser maiores do que a responsabilidade de proteger quem não tem condições de se defender sozinho.

Foi diante dessa indignação que populares reagiram no Centro. A agressão ao homem, evidentemente, não é a melhor resposta e não cabe à população fazer justiça com as próprias mãos. Mas seria simplista ignorar o sentimento que existe por trás de uma reação como essa. Há uma revolta legítima quando uma criança parece estar em perigo e, ao mesmo tempo, existe uma sensação de impotência diante de uma Justiça que muitas vezes demora a apresentar respostas.

Isso não transforma a violência em solução. A reação correta é proteger a criança, afastá-la do risco, chamar a polícia e cobrar investigação e resposta das autoridades. Afinal, quando a sociedade perde a confiança de que as instituições agirão com rapidez, cresce a perigosa sensação de que cada um precisa resolver os problemas por conta própria.

O episódio deixa uma reflexão que vai muito além daquela rua, da agressão ou do fato em si. É preciso construir uma sociedade que não se omita diante de uma criança em perigo, que denuncie antes que seja tarde e que cobre respostas rápidas da Justiça.

Porque, quando há pessoas olhando, alguém pode perceber, intervir e pedir ajuda. Mas quantas crianças estão enfrentando situações que ninguém está vendo?


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