Verdade por trás

Medo! Essa é a palavra que todo paciente oncológico usa para definir o diagnóstico. O sentimento de fato não poderia ser outro, afinal, além da doença já ser alta complexidade, há ainda os caminhos escuros que os pacientes percorrem sozinhos. Ontem, foi celebrado o Dia Mundial de Combate ao Câncer, e o tema dominou as redes sociais e os noticiários. Mas, a verdade por trás das imagens lindas, e das mensagens de apoio que foram publicadas ao longo, é que os pacientes oncológicos ainda enfrentam batalhas árduas, como a realização de exames, o acesso à primeira consulta, e demais obstáculos. Tanto se fala em diagnóstico precoce, mas a realidade é que atualmente em Divinópolis 1646 pessoas aguardam na fila para realizar uma colonoscopia, 592 para fazer endoscopia. Esses exames auxiliam no diagnóstico precoce dos cânceres de estômago e esôfago, e o tempo médio de espera na fila do Sistema Único de Saúde (SUS) é de um ano e oito meses. Tanto fala-se da realização regular de exames, mas, atualmente existe uma fila de 513 mulheres aguardando por uma mamografia. Algumas, estão à espera há quase dois anos. Muito além dos posts, das histórias de superação, existe uma realidade dura e difícil que a população que não possui plano de saúde, ou dinheiro para fazer particular, enfrenta.
As políticas públicas, claro, são insuficientes. Diante o cenário o povo se une às associações por meio de doações e dão o seu melhor para tentar garantir o mínimo de conforto para quem precisa. Enquanto as políticas públicas em prol dos pacientes oncológicos se arrastam Brasil afora, é a união e a força da população que faz a diferença para mudar destinos. O Instituto Nacional do Câncer (INCA) estima que são esperados 704 mil casos novos de câncer no Brasil para cada ano do triênio 2023-2025, com destaque para as regiões Sul e Sudeste. Os números não diminuem, eles seguem aumentando a cada ano, a cada triênio, e a realidade por trás das publicações milimetricamente ensaiadas é que faltam direitos para aqueles que enfrentam uma doença de alta complexidade. As campanhas estão por todos os lados, mas faltam exames. Faltam vagas. Falta acesso rápido à primeira consulta com um oncologista. O Ministério da Saúde por meio da Lei Nº 12.732/2012 determina que o SUS deve iniciar o tratamento de pacientes com câncer em até 60 dias. 1.440 horas. Esse é o tempo que um paciente oncológico deve esperar – em alguns casos a primeira consulta com o oncologista pode ser marcada antes – para iniciar o seu tratamento. A verdade por trás dessa Norma é que para quem está com o diagnóstico em mãos, cada minuto, cada segundo conta.
O que desola é saber que o olhar só volta para o contexto quando o diagnóstico chega, e o medo vem. Os olhares só se voltam para a necessidade da criação de políticas públicas quando o tempo começa a ser contado no relógio, e cada segundo vale ouro. Eles só enxergam quando a verdade por trás das redes sociais se apresenta, nua, crua e cruel. Até lá, o imaginário segue sendo protagonista dentro de uma realidade que urge por mudanças e melhorias.
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