Quando o eleitor é deixado de lado

O primeiro debate presidencial de 2026 deveria ser um momento de confronto de ideias, apresentação de propostas e, principalmente, de contato com quem realmente decide uma eleição: o eleitor. Mas, na noite de domingo, faltaram justamente os dois nomes que lideram as pesquisas. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) escolheram não estar na Band. E, com eles, também faltou parte essencial do debate.
Não se trata de dizer que um candidato é obrigado a participar de todo e qualquer evento. Existem agendas, estratégias eleitorais e justificativas políticas. Mas há uma diferença entre escolher não participar de um debate secundário e simplesmente deixar de comparecer ao primeiro grande confronto televisionado de uma eleição presidencial.
A ausência teve consequência evidente. Lula e Flávio, mesmo fora do estúdio, foram os principais personagens da noite. Foram citados, atacados e cobrados pelos adversários. Enquanto Caiado, Renan Santos e Augusto Cury discutiam entre si, os dois líderes das pesquisas ocupavam o centro do palco sem precisar estar nele.
É difícil não questionar o recado transmitido ao eleitor. Se um candidato pretende ocupar a cadeira mais importante do país, por que não se sentar diante das câmeras para explicar suas ideias, responder às críticas e enfrentar os adversários? Se há confiança no próprio projeto, por que fugir do confronto?
A justificativa de que participar significaria virar alvo preferencial também merece reflexão. Ora, debates existem justamente para isso. O candidato que lidera precisa ser questionado. Precisa explicar suas decisões. Precisa ouvir críticas. Precisa mostrar por que merece continuar ou chegar ao poder. Não existe democracia confortável.
E o eleitor não pode ser tratado como figurante de uma eleição. É ele quem deposita o voto, quem entrega a um político a responsabilidade de governar, nomear ministros, definir prioridades, administrar bilhões e tomar decisões que afetam milhões de vidas.
O debate também mostrou que a ausência pode custar caro. Uma pesquisa qualitativa do Instituto Travessia apontou migração de parte dos eleitores de Flávio para Caiado e Renan Santos após o confronto, enquanto os apoiadores de Lula permaneceram mais resistentes. É apenas uma fotografia pequena do momento, não uma pesquisa eleitoral, mas revela algo importante: quando um candidato não ocupa o espaço, alguém ocupa por ele.
Caiado e Renan aproveitaram. Um com experiência e discurso mais moderado; outro com agressividade e forte aposta no confronto. Podem ter agradado ou desagradado, mas estiveram lá. Se saíram maiores ou menores da noite, isso será medido ao longo da campanha. O fato é que se colocaram diante do eleitor.
Lula e Flávio fizeram uma escolha diferente. E, numa eleição, toda escolha tem consequência. O eleitor brasileiro já está cansado de ser chamado apenas quando chega a hora de apertar o botão. Ele merece mais do que propaganda, cortes para redes sociais e discursos cuidadosamente preparados. Merece ver seus candidatos sob pressão, respondendo perguntas, sendo confrontados e mostrando como pretendem governar.
Debate não é espetáculo. Não é favor concedido à imprensa. É uma das poucas oportunidades em que o eleitor pode assistir, lado a lado, a quem pede seu voto. Quando os principais candidatos não aparecem, quem perde não é a Band, não são os adversários e não é o debate: quem perde é o eleitor.
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