Uma cerca, três feridos

Uma questão envolvendo os limites de uma propriedade rural, que se arrasta há mais de uma década, terminou em agressões contra um idoso de 75 anos e duas filhas dele. O que começou como uma questão relacionada à documentação, à metragem e aos limites do imóvel chegou a um ponto que jamais deveria alcançar: três pessoas feridas e uma família vivendo com medo.
Segundo os relatos apresentados à Polícia Militar, a família adquiriu o terreno há anos e, posteriormente, identificou uma diferença entre a área registrada em escritura e aquela que havia sido cercada. A questão passou por advogado, topógrafo e pelos caminhos judiciais. Mais recentemente, a família voltou a tratar do assunto e instalou uma nova cerca com base em levantamento topográfico. Até aqui, estamos falando de uma questão patrimonial que possui meios legais para ser discutida e resolvida.
O problema é quando uma questão que deveria permanecer no campo dos documentos e das instituições passa para o campo da violência. Segundo a família, a cerca foi destruída e, no domingo, o ex-proprietário do local teria ido ao terreno e iniciado as agressões contra o idoso. As duas filhas tentaram intervir e também foram atacadas.
Os fatos ainda serão investigados pela Polícia Civil, e o suspeito não havia sido localizado até o fim da tarde de ontem. Mas, independente do resultado da apuração, existe algo que não pode ser relativizado: nenhum desacordo sobre limites de propriedade autoriza alguém a recorrer à violência.
O idoso sofreu fraturas em três costelas e em um dedo. As filhas ficaram com hematomas, escoriações e outras lesões. Uma delas relata que a família passou a ter medo de sair de casa e até de cumprir atividades cotidianas.
E tudo isso por uma questão que, desde o início, deveria ser resolvida por documentos, medições, advogados e decisões judiciais. Se existe divergência sobre a metragem de um terreno, que se apresentem os documentos. Se existe discordância sobre os limites, que se faça a medição. Se existe um direito a ser reconhecido, que a Justiça seja acionada. O que não pode acontecer é substituir esses instrumentos pela força.
Mais grave ainda é quando uma pessoa de 75 anos se torna alvo de agressões. A idade não transforma ninguém em intocável, mas exige um mínimo de humanidade diante de qualquer conflito. Socos, chutes e ameaças não são argumentos. Não resolvem a questão patrimonial, não estabelecem quem tem razão e não fazem desaparecer nenhum dos documentos envolvidos.
O episódio também mostra como conflitos prolongados podem se tornar perigosos quando não encontram uma solução definitiva. Quanto mais tempo uma questão permanece cercada de desentendimentos, ameaças e desconfianças, maior deveria ser o esforço para mantê-la dentro dos limites da lei. A Justiça pode ser lenta, um acordo pode ser difícil e uma solução pode exigir tempo. Ainda assim, nenhum desses obstáculos transforma a violência em alternativa aceitável.
A reação dos moradores, que ouviram os pedidos de socorro e ajudaram a família a entrar na residência, impediu que aquele momento tivesse consequências ainda mais graves. E há uma preocupação que não pode ser ignorada: o suspeito continua foragido, enquanto a família permanece com medo. Se uma questão que deveria ser resolvida por meios legais já chegou a agressões físicas e ameaças, é legítimo cobrar que as autoridades atuem para proteger as vítimas e localizar o responsável. Se hoje o conflito terminou em agressões, o que garante que amanhã não possa haver uma escalada ainda mais grave?
No fim, a verdadeira linha que não poderia ter sido ultrapassada não estava no terreno. Estava na convivência, no respeito e na própria lei. Questões sobre propriedade podem ser discutidas, contestadas e decididas. Ferimentos, medos e traumas, porém, não se resolvem com uma nova medição.
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