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Editorial

Uma cerca, três feridos

Por Gabriela Lara · Redação· 3 min de leitura
Uma cerca, três feridos

Uma questão envolvendo os limites de uma propriedade rural, que se arrasta há mais de uma década, terminou em agressões contra um idoso de 75 anos e duas filhas dele. O que começou como uma questão relacionada à documentação, à metragem e aos limites do imóvel chegou a um ponto que jamais deveria alcançar: três pessoas feridas e uma família vivendo com medo.

Segundo os relatos apresentados à Polícia Militar, a família adquiriu o terreno há anos e, posteriormente, identificou uma diferença entre a área registrada em escritura e aquela que havia sido cercada. A questão passou por advogado, topógrafo e pelos caminhos judiciais. Mais recentemente, a família voltou a tratar do assunto e instalou uma nova cerca com base em levantamento topográfico. Até aqui, estamos falando de uma questão patrimonial que possui meios legais para ser discutida e resolvida.

O problema é quando uma questão que deveria permanecer no campo dos documentos e das instituições passa para o campo da violência. Segundo a família, a cerca foi destruída e, no domingo, o ex-proprietário do local teria ido ao terreno e iniciado as agressões contra o idoso. As duas filhas tentaram intervir e também foram atacadas. 

Os fatos ainda serão investigados pela Polícia Civil, e o suspeito não havia sido localizado até o fim da tarde de ontem. Mas, independente do resultado da apuração, existe algo que não pode ser relativizado: nenhum desacordo sobre limites de propriedade autoriza alguém a recorrer à violência.

O idoso sofreu fraturas em três costelas e em um dedo. As filhas ficaram com hematomas, escoriações e outras lesões. Uma delas relata que a família passou a ter medo de sair de casa e até de cumprir atividades cotidianas.

E tudo isso por uma questão que, desde o início, deveria ser resolvida por documentos, medições, advogados e decisões judiciais. Se existe divergência sobre a metragem de um terreno, que se apresentem os documentos. Se existe discordância sobre os limites, que se faça a medição. Se existe um direito a ser reconhecido, que a Justiça seja acionada. O que não pode acontecer é substituir esses instrumentos pela força.

Mais grave ainda é quando uma pessoa de 75 anos se torna alvo de agressões. A idade não transforma ninguém em intocável, mas exige um mínimo de humanidade diante de qualquer conflito. Socos, chutes e ameaças não são argumentos. Não resolvem a questão patrimonial, não estabelecem quem tem razão e não fazem desaparecer nenhum dos documentos envolvidos.

O episódio também mostra como conflitos prolongados podem se tornar perigosos quando não encontram uma solução definitiva. Quanto mais tempo uma questão permanece cercada de desentendimentos, ameaças e desconfianças, maior deveria ser o esforço para mantê-la dentro dos limites da lei. A Justiça pode ser lenta, um acordo pode ser difícil e uma solução pode exigir tempo. Ainda assim, nenhum desses obstáculos transforma a violência em alternativa aceitável.

A reação dos moradores, que ouviram os pedidos de socorro e ajudaram a família a entrar na residência, impediu que aquele momento tivesse consequências ainda mais graves. E há uma preocupação que não pode ser ignorada: o suspeito continua foragido, enquanto a família permanece com medo. Se uma questão que deveria ser resolvida por meios legais já chegou a agressões físicas e ameaças, é legítimo cobrar que as autoridades atuem para proteger as vítimas e localizar o responsável. Se hoje o conflito terminou em agressões, o que garante que amanhã não possa haver uma escalada ainda mais grave? 

No fim, a verdadeira linha que não poderia ter sido ultrapassada não estava no terreno. Estava na convivência, no respeito e na própria lei. Questões sobre propriedade podem ser discutidas, contestadas e decididas. Ferimentos, medos e traumas, porém, não se resolvem com uma nova medição.


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