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Editorial

Quando o cuidado falha

Por Redação Jornal Agora · Redação· 3 min de leitura
Quando o cuidado falha

Uma paciente com câncer caiu de uma maca enquanto era transportada de sua casa até uma ambulância em São Sebastião do Paraíso, no Sudoeste de Minas. A cena foi registrada por uma câmera de segurança e mostra o momento em que dois funcionários da prefeitura conduzem a maca pela calçada. Ao passar pela rua, a paciente cai e bate a cabeça no chão. Depois, é recolocada sobre a maca e levada para a ambulância.

A imagem chama atenção justamente porque mostra, em poucos segundos, como uma situação que deveria representar cuidado pode se transformar em um momento de risco. Uma pessoa que precisa ser transportada em uma maca já está em uma condição de vulnerabilidade. Ela depende de quem está ao redor para que aquele deslocamento aconteça com segurança.

Segundo a Prefeitura, os funcionários não seguiram os protocolos de transporte e foram dispensados. A medida demonstra que houve uma falha no procedimento. Mas a demissão dos envolvidos, embora seja uma resposta diante do descumprimento das regras, não deveria encerrar a discussão.

Protocolos de segurança não existem por acaso. Não são burocracias criadas para dificultar o trabalho ou etapas que podem ser ignoradas quando parecem inconvenientes. São procedimentos estabelecidos justamente para reduzir riscos em situações nas quais um erro pode ter consequências graves. Quando uma regra destinada a proteger um paciente é deixada de lado, aquilo que parecia apenas um detalhe pode se transformar em um acidente.

Por isso, é necessário olhar para além da punição individual. Os profissionais responsáveis pelo transporte de pacientes recebem treinamento adequado? Os procedimentos são reforçados regularmente? Existe acompanhamento suficiente para garantir que as normas sejam cumpridas? Os equipamentos utilizados são adequados às condições de cada paciente?

Não se trata de apontar culpados além do que os fatos permitem. Trata-se de reconhecer que a segurança precisa ser uma responsabilidade permanente. Se existe um protocolo para evitar que uma pessoa caia de uma maca, ele precisa ser conhecido, respeitado e fiscalizado.

Também é preciso abandonar a ideia de que eficiência significa apenas fazer tudo rapidamente. No atendimento em saúde, chegar depressa não basta. Transportar um paciente de forma eficiente significa fazê-lo com segurança, atenção e responsabilidade. De nada adianta encurtar alguns minutos do percurso se, durante esse caminho, a pessoa que deveria estar sendo protegida é colocada em risco.

Felizmente, a paciente está internada em estado estável e apresenta escoriações. Mas o fato de o desfecho não ter sido ainda mais grave não diminui a importância do episódio. Acidentes precisam ser tratados como alertas, não apenas como acontecimentos encerrados depois que a vítima recebe atendimento.

A câmera que registrou a queda tornou visível uma falha que poderia ter passado despercebida. Quem coloca uma pessoa em uma maca assume uma responsabilidade que vai muito além de empurrar um equipamento. Do outro lado está alguém que confia naquele serviço em um momento de fragilidade. Essa confiança não pode ser tratada como algo automático.

O serviço público de saúde lida diariamente com pessoas que precisam de cuidados. E cuidado não é apenas atender, transportar ou cumprir uma tarefa. É fazer cada etapa com a atenção necessária para preservar a segurança de quem está sendo atendido.


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