Cansaço eleitoral

Findadas as eleições, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, cabe aos derrotados “lamber as feridas” e aos ganhadores se prepararem para os iminentes desafios. Como é natural de qualquer pleito, alguns partidos amanhecem maiores ou menores, em êxtase ou reflexivos. Esse é um dos principais desafios da política: transformar os números e as estatísticas dos boletins das urnas em análises concretas sobre o cenário.
É preciso entender o recado dos eleitores nas urnas. Uma das principais mensagens talvez seja o cansaço do eleitorado em relação a discursos e promessas floreadas, especialmente de quem já está no poder e pouco fez. Por isso, pouca importância é dada aos planos de governos divulgados durante as campanhas.
O eleitor está cada vez menos interessado no que um candidato pode entregar e mais no que ele de fato entregou. Nesse sentido, “uma faca de dois gumes”. Quem já ocupa um cargo político tem mais poder de articular entregas e realizações. No entanto, eles também estão mais suscetíveis às críticas em caso de um governo inerte —um prato cheio para quem está fora e quer entrar.
As redes sociais seguem como fortes plataformas de alcance, principalmente em votações nacionais. Não adianta querer “criminalizar” os políticos que se adequaram à era digital. Nos dias atuais, não adianta ser técnico e qualificado para o cargo, e não conseguir dialogar com os eleitores. O maior problema continua a ser o grande volume de informações falsas, sendo crucial saber filtrar tais conteúdos e acompanhar veículos de comunicação com credibilidade.
Os números, porém, não concentram todas as respostas. Diante de tantos fatores durante uma campanha, bons candidatos também perdem. Não há uma ciência exata para se ganhar uma eleição. Para além dos dados, é importante entender o sentimento do eleitorado em relação às candidaturas. Muitas vezes, é nítida a frustração, ou mesmo comodismo, com determinadas figuras da política. Por vezes, o medo não é apenas da “velha política", mas das mudanças que o novo pode trazer. E, assim, figuras experientes acabam se elegendo sob o mantra “dos males, o menor”.
Se a reflexão dos partidos e das lideranças se abraça na elaboração de estratégias para os próximos dois anos, resta ao eleitor reconhecer e cumprir seu papel cívico. O dever democrático não termina na cabine de votação — apenas começa. Presença em audiências, conversas com os eleitos, pelas redes sociais ou procurando seus gabinetes, diálogo com entidades representativas e tantas outras ações ajudam na construção de uma política saudável e participativa.
Afinal, aqueles calejados pela política sabem: nenhum resultado é o fim ou a salvação. Não existem herois da pátria. Para os cidadãos, o mundo continua, um dia após o outro, com muito trabalho e dedicação para manter a comida na mesa. Pois sabem que, se de fato alguém mudará suas vidas, são eles próprios. Como sempre foi. Como sempre será.
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