Mulheres sob ameaça, democracia em risco

Uma eleição deveria colocar propostas em confronto, não pessoas sob ameaça. Em Minas Gerais, porém, a campanha de 2026 vem acumulando episódios que ultrapassam qualquer limite aceitável do debate político. Lohanna França, Bella Gonçalves, Ana Elisa Santos Silva, Andréia de Jesus e Duda Salabert estão entre as mulheres que denunciaram ameaças ou episódios de violência nas últimas semanas. Fora de Minas, Fernanda Klitzke também relatou ter sido agredida em Santa Catarina. Mas há algo que as aproxima: mulheres que ocupam ou tentam ocupar espaços na política estão tendo de lidar com a violência justamente quando deveriam estar disputando ideias.
Lohanna voltou a receber ameaças e foi alvo de uma operação da Polícia Federal, que apreendeu um celular em Belo Horizonte. Segundo a PF, as mensagens recebidas em julho estavam relacionadas ao exercício do mandato. Ana Elisa relatou ameaças de morte, violência sexual e conteúdo racista. Andréia de Jesus também denunciou ameaças. Duda Salabert relatou agressões durante uma fiscalização. Bella Gonçalves afirmou ter recebido ameaças de morte e estupro. Não é apenas discordância política que aparece nesses episódios. É a tentativa de atingir mulheres pelo corpo, pelo gênero, pela identidade e pelo medo.
É preciso dizer o óbvio: discordar de uma candidata faz parte da democracia. Criticar seu partido, contestar suas propostas, cobrar seu mandato e até fazer oposição dura são direitos de qualquer eleitor. Ameaçar de morte ou estupro não é debate. Racismo não é debate. Agressão física não é debate. Intimidação não é liberdade de expressão.
E o problema se torna ainda mais grave porque a violência não precisa conseguir retirar uma candidata da eleição para cumprir seu efeito. Basta fazê-la andar com medo, limitar sua exposição, mudar sua rotina, preocupar-se com a segurança dos filhos e familiares ou pensar duas vezes antes de participar de uma agenda.
O mais preocupante é que o país não está sem instrumentos para reconhecer esse problema. A violência política contra a mulher é crime desde 2021, e a própria Justiça Eleitoral afirma que ela compromete os direitos políticos, a igualdade de oportunidades e a participação feminina na vida pública. Ainda assim, candidatas relatam que procuram as autoridades e continuam desprotegidas.
É justamente aí que a cobrança precisa ser feita. De que serve uma lei que reconhece a violência política de gênero se a mulher ameaçada precisa continuar esperando para saber se alguém será responsabilizado? De que serve um canal de denúncia se a proteção chega apenas depois da agressão? Não se trata de exigir que o Estado antecipe todo crime, mas de cobrar que as denúncias recebam resposta compatível com a gravidade do risco.
A situação também precisa ser encarada dentro de um contexto maior. Mulheres ainda são minoria nos espaços de poder: nas eleições de 2022, elas conquistaram 91 das 513 cadeiras da Câmara, 17,7% do total. Portanto, quando uma mulher é intimidada para deixar a política, não é apenas uma candidatura que está sendo atingida. É uma participação que já é pequena sendo submetida a mais uma barreira.
O eleitor pode rejeitar qualquer candidatura. Pode discordar, criticar e votar em outro nome. O que não pode acontecer é a violência ocupar o lugar do voto.
Quando uma candidata precisa escolher entre exercer plenamente seu direito político e preservar a própria segurança, não é apenas uma mulher que está sendo intimidada. É a própria democracia que está sendo ensinada a conviver com o medo.
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