Chuva de dinheiro

Se os discursos políticos cobram corte de gastos, as atitudes vão na direção contrária. Um país que debocha de seu próprio povo. Em frente às câmeras, defendem a importância do equilíbrio fiscal. Fora delas, não estão interessados em construir para uma economia saudável.
O presidente Lula (PT), por exemplo, não deve sancionar o projeto de aumento de deputados. Não é um ato gentil, mas estratégico: não quer sancionar e se desgastar com a população, nem vetar e ampliar a crise com os parlamentares. Resultado: o texto voltará ao Congresso. Questionado se promulgará o texto, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), respondeu: “Se chegar às 10h [para promulgação], vai ser promulgado às 10h01”. Riem na cara de quem os elegeu.
Em outras decisões, o Congresso também aprovou o reajuste de 9% nos salários das Forças Armadas, com um custo de R$ 5,3 bilhões aos cofres públicos no próximo ano. Já a ida de 36 parlamentares ao Fórum Jurídico de Lisboa, do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, custará R$ 760 mil para a Câmara e o Senado.
O Congresso também encaminha a aprovação de 160 cargos comissionados no Supremo Tribunal Federal. O custo pode chegar a R$ 15 milhões nos próximos dois anos.
É difícil acreditar no discurso de equilíbrio fiscal diante de tais atitudes. Confirmam que pensam apenas em si, sem qualquer visão macro visando a coletividade. E, no ano que vem, com o fundo eleitoral, mas um baque nos cofres públicos.
O Brasil é um país rico de gente pobre, que luta para sobreviver diariamente e colocar comida na mesa. Um país onde quase tudo para além da alimentação e de contas básicas, como aluguel, água e energia, é item de luxo. O sonho da casa própria, do carro, de viagens… Tudo é um sonho distante.
Enquanto, neste mesmo Brasil, uma nova peça é pregada nos brasileiros a cada dia, com o constante inchaço da máquina pública. E, todos sabem, no país da hipocrisia, o aumento quase nunca significa mais eficiência.
Não adianta cobrar corte de gastos se não dão o exemplo e começam a minimizar suas próprias regalias. O que não faltam são privilégios a serem abolidos.
Mas na fria realidade, o cobertor é curto. E quem sempre paga a conta é o cidadão comum, que vê tudo encarecer. Viver está cada dia mais caro. Enquanto uns lutam por direitos, outros lutam por privilégios.
Os servidores entram, anualmente, em greve, cobram melhores condições de trabalho e tantas outras questões — fora os anos sem reajuste. Mas em Brasília, no mundo paralelo, um grupo decide constantemente aumentar a fatura. O corte de gastos nunca é sobre eles, mas sobre os outros, que os elegeram, e o mantém lá .
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