Carregando clima…
Editorial

Dois Brasis 

Por Portal Agora
Dois Brasis 

Diante dos constantes absurdos, muitos números não chocam mais. Banalizamos um país com uma elite cada vez mais privilegiada e uma população vulnerável a cada dia mais ignorada. Estudo do Movimento Pessoas à Frente revelou que os gastos do Judiciário com salários acima do limite constitucional aumentaram 49,3% entre 2023 e 2024, subindo de R$ 7 bilhões para R$ 10,5 bilhões em apenas um ano. Para fins de comparação, nesse período, a inflação não chegou a 5%.

Os dados levam em consideração os “penduricalhos”, ou seja, as verbas indenizatórias e adicionais que permitem aos magistrados receber além do teto legal do funcionalismo público. Atualmente, os adicionais correspondem a 43% do salário líquido. O teto constitucional hoje é de R$ 46.366,19, no entanto o rendimento médio de um magistrado em fevereiro foi de R$ 66 mil, justamente devido aos auxílios e benefícios, que ainda fogem não apenas do teto, mas também da tributação de Imposto de Renda.

Assim, é errado dizer que o sistema não funciona. Ele funciona e muito bem, porém apenas para uma pequena parcela que aproveita todas as brechas. Não é ilegal, obviamente — eles mesmo se asseguram disso; mas é um comportamento completamente imoral diante de tantos desafios que a população enfrenta diariamente. O alto escalão dos três poderes, infelizmente, vive uma realidade alternativa à dos demais brasileiros. Como alguém pode receber um salário médio de R$ 66 mil enquanto o salário mínimo mal beira R$ 1.500? Uma disparidade que, em vez de nos deixar tantas pessoas indignadas, apenas reafirma a descrença no poder público. 

É natural que os brasileiros estejam cada vez mais adeptos à polarização. Todos os dias, as notícias parecem apenas piorar: rombo no INSS, aumento de deputados, supersalários e tantas outras somam-se ao caos político. Todos estão à procura de um salvador e passam a endeusar determinadas figuras políticas, consideradas disruptivas. No campo prático, porém, aqueles diferentes acabam sendo absorvidos pelo sistema. Infelizmente, aqueles que chegam ao poder estão, quase sempre, interessados em manter suas cadeiras —não importa a esfera. 

Os supersalários são apenas uma gota de água no meio do oceano de privilégios que é o Brasil. E, a cada dia, os benefícios apenas aumentam. Cortam apenas na carne do brasileiro para legislar em causa própria. Os ditos representantes do povo estão cada vez mais distantes do “morador comum” e, consequentemente, menos aptos a representá-los. 

A vida seguirá. Com o brasileiro tendo dificuldade de colocar alimento na mesa, pagar seu aluguel, comprar um carro, fazer uma viagem… Compromissos que, para quem ganha em média R$ 66 mil por mês, podem parecer simples. De um lado, um Brasil que parece quebrado, necessitando urgentemente de cortes de gastos; do outro, um país em que os privilégios seguem aumentando, com salários cada vez maiores, com um Congresso prestes a ter ainda mais deputados. Afinal, qual desses Brasil realmente existe? Por mais hipócrita que pareça, os dois. 

Compartilhe:WhatsAppFacebookTwitter

Comentários

Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.

Carregando comentários…