Rumo ao precipcío

Para um governo que tenta equilibrar as contas, o caminho parece contrário. O Brasil pode ter mais 18 deputados federais — e, como consequência, mais 30 estaduais. Apenas na esfera federal, o impacto será de quase R$ 65 milhões por ano. Isso sem contar os R$ 52 bilhões em emendas parlamentares. Todos esses valores não assustam mais um país calejado pela hipocrisia.
Em um momento em que o país clama por responsabilidade fiscal, eficiência no uso dos recursos públicos e representatividade com qualidade — e não quantidade — o Congresso Nacional parece ter perdido completamente o senso de prioridade. O aumento é a resposta encontrada ao Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a atualização do número de deputados de acordo com o censo atualizado. O número atual de deputados (513) tem como base o censo de 1985.
No papel, é coerente — afinal, é importante que a representantiva caminhe em comum acordo com o tamanho populacional de cada região. Mas, na prática, sabe-se que o sistema serve apenas para se retroalimentar. O Brasil não precisa de mais parlamentares; precisa de melhores parlamentares.
Cada novo deputado representa um custo milionário por mandato, considerando salários, cotas parlamentares, assessores, verbas de gabinete, viagens, moradia, entre outros privilégios. Não bastasse o desrespeito à austeridade fiscal, a medida também passa uma mensagem perigosa: a de que a classe política está mais preocupada em se expandir do que em se reformar.
Não é possível medir a qualidade de um parlamentar através do número de cadeiras. É preciso aumentar a qualificação, e não os assentos. O que vemos hoje, infelizmente, é uma máquina inchada, onde cada um está interessado em alimentar narrativas divisórias, sem qualquer interesse coletivas. Enquanto os dois lados se odeiam, um ajuda a eleger o outro.
Nesse caso, se aprovado, o aumento é apenas financeiro. Não há qualquer perspectiva de um Congresso melhor e mais sensato — pelo contrário. Estamos cada vez ficando para trás: em infraestrutura, esporte, cultura, educação, saúde e, principalmente, cidadania. Os discursos inflamados atendem apenas a seus próprios interesses: de jogar os cidadãos uns contra os outros.
Soma-se a isso, todos os outros privilégios, auxílios e verbas disponíveis a cada parlamentar. Uma verdadeira máquina de reeleição. A qualidade dos discursos e das ações caem cada vez mais. Todo o debate parece centrado em apenas uma guerra de narrativas: Lula x Bolsonaro. Resultado: os maiores partidos hoje são PL e PT. Nenhum deles está interessado em estar certo ou ganhar a briga. Pelo contrário, o conflito é o que mantém ambos fortes.
E, enquanto discute-se ideologias, moradores continuam vivendo com esgoto a céu aberto, com dificuldade de agendar uma cirurgia, contando as moedas para fazer as compras do mês… E como imaginar que mais deputados será melhor quando, na realidade, eles parecem os mais desconectados da vida mundana, perdidos na névoa dos próprios privilégios?
E, obviamente, essa conta é paga pelo suor do trabalhador. E se a carga tributária é alta, também é responsabilidade dos políticos, já que o cidadão precisa sustentar uma máquina sanguessuga. Então, por favor, menos hipocrisia. É abaixar a cabeça, reconher as falhas do sistema e superá-las, cortando na carne, como já deveria ter sido feito há muito tempo.
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