Silêncio

Do lado de fora, filas “quilométricas” no Sistema Único de Saúde (SUS). Não há vagas. Não tem exames, não tem consultas, não tem procedimentos. A espera por um simples ultrassom pode ultrapassar 365 dias. Em diversos bairros não há sequer sanemaento básico. O esgoto escorre a céu aberto na porta de inúmeras residências. Crianças têm suas infâncias marcadas pela pobreza, pelo descaso. Em casa, a comida é contada. Não há fartura. Quando muito, tem o básico, o “arroz com feijão”. Quando dá certo, elas crescem como desejo de estudar e se tornarem melhores. Ter e dar aos seus o que não tiveram. Quando a sorte bate à porta, junto ao esforço e dedicação diários, conseguem acesso ao ensino superior e podem traçar caminhos de sucesso. Enquanto essa história do Brasil real se desenroal dia após dia para milhões de brasileiros, incluindo, em centenas de municípios, o Congresso Nacional aprovou, nessa quarta-feira, 25, uma proposta de lei que aumenta de 513 para 531 o número de vagas para deputados federais. A medida pode gerar um impacto de, pelo menos, R$ 95 milhões por ano. O texto foi aprovado, no Senado, após passar com facilidade pela Câmara, por 41 votos favoráveis, o mínimo necessário, e agora retorna para a Câmara dos Deputados analisar as modificações feitas pelo relator, senador Marcelo Castro (MDB-PI). A medida precisa ser sancionada até 30 de junho, prazo final estipulado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Isso, em meio a mandatos fracos, que trazem poucas mudanças e melhorias para o país. A atuações que na maioria das vezes apenas fomentam o ódio e polarização, os governantes trabalham para tornar o parlamento brasileiro mais caro, mais pesado para a população. Muita gente não sabe, mas o custo de um deputado federal no Brasil vai muito além do salário mensal. Os parlamentares recebem uma série de benefícios que, somados, geram um dos custos legislativos mais altos do mundo. Para 2025, o valor estimado de manutenção de cada deputado federal ultrapassa R$ 270 mil por mês, segundo levantamento do Poder360. O gasto anual é superior a R$ 3,2 milhões por parlamentar. Este cálculo não inclui despesas indiretas, como estrutura administrativa, segurança, manutenção de imóveis e campanhas eleitorais. Enquanto o país se escreve na realidade da maioria da população que apenas sobrevive a tudo isso, sobra tempo para os governantes articular as melhores formas de explorar que não tem o mínimo, e quem resiste com o básico. A situação, mais uma vez, claro, beira ao surreal. Falta dinheiro para milhares de coisas para o povo, mas sobra quando o assunto é legislar em causa própria.
Já não bastassem os atuais mandatos cercados de amadorismo, que trazem inúmeros retrocessos, os governantes trabalham para encher a Casa Legislativa de mais amadores. A conta chegou, e chegará cada vez mais cara. O que chama a atenção neste momento é o silêncio ensurdecedor de quem não poupa gritos quando o assunto é lacrar nas redes sociais. O que impressiona agora é o silêncio de quem grita aos quatro cantos que é inadmissível roubar do povo, mas segue inerte perante o cenário. Ao longo do tempo de mandato dos parlamentares, de quatro anos, o aumento de vagas pode chegar a custar R$ 380 milhões para os cofres públicos. Silêncio! Eles estão trabalhando em causa própria. Ao povo caberá apenas sobreviver ao Brasil.
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