Sem pudor

Os políticos foram duros e claros em suas críticas ao governo federal: é preciso cortar gastos. Aparentemente, esqueceram do que disseram. Em mais uma votação constrangedora, deputados derrubaram vetos do governo Lula e, agora, a conta de luz pode ficar 3% mais cara para atender o interesse de empresários. Quem mais defende a necessidade de enxugar a máquina, defintiivamente, são aqueles que trabalham para inchalá. O bom senso econômico e a vontade popular são totalmente ignorados para atender vontades particulares de poucos.
Na prática, muitos desses mesmos parlamentares que se dizem guardiões da austeridade são os primeiros a aprovar medidas que transferem a conta para o bolso do cidadão. É comum ver legisladores subirem à tribuna para criticar o “Estado inchado”, defender o fim de benefícios sociais ou a redução de investimentos públicos, sempre em nome da responsabilidade fiscal. Mas, longe dos microfones, nos bastidores ou nas votações discretas, muitos apoiam projetos que aumentam tarifas, criam taxas ou elevam os custos indiretos da população — seja por meio de reajustes no transporte, aumentos abusivos em serviços essenciais ou até mesmo na criação de novos cargos comissionados para atender demandas políticos.
Essa contradição revela uma perigosa hipocrisia. O discurso do corte de gastos é usado como escudo ideológico, mas não passa de retórica oca quando confrontado com as ações concretas desses parlamentares. Na prática, o “enxugamento” recai sempre sobre os mais vulneráveis, enquanto os verdadeiros privilégios e desperdícios continuam intactos nos corredores do poder.
O cidadão, que já carrega um peso tributário alto e vê poucos retornos em serviços públicos de qualidade, acaba sendo duplamente enganado: primeiro pelo discurso falso de responsabilidade, depois pela caneta que aprova mais um aumento. É preciso exigir coerência. Quem defende o corte de gastos deve agir como tal. Quem prega responsabilidade fiscal precisa ter coragem de enfrentar os verdadeiros gargalos da máquina pública — e não mirar sempre no elo mais fraco. A transparência, a honestidade intelectual e o compromisso com a verdade são os mínimos esperados de quem se propõe a representar o povo.
Enquanto esse cenário continuar, os cortes seguirão insufiencientes. E ainda pode-se votar em breve o aumento de deputados federais. Mais um gasto que contribui para inflar a máquina pública.
Do contrário, continuaremos a assistir a um teatro cínico, em que o enredo é sempre o mesmo: o povo paga a conta, e os autores da peça continuam no palco, aplaudidos por seus próprios discursos.
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