Política e família

A busca pela fama, pelo midiatismo tomou conta de boa parte da humanidade, que de fato não estava preparada para lidar com a popularização da internet. Em busca dos holofotes, de preencher vazios internos, de fazer a vida pessoal virar um espetáculo, alguns ultrapassam os limites do bom senso, e chegam a cometer crimes sem o menor pudor. E, o pior, sem qualquer tipo de responsabilização. As denúncias de adultização de crianças, feitas pelo influenciador Felca, no início deste mês, veio como um “soco na boca do estômago” do brasileiro, e colocou o povo de frente a uma reflexão importante e extremamente necessária. Afinal, qual a rota que se está seguindo? Enquanto muitos se colocam hoje no lugar de juízes, de grandes julgadores, a verdade é que a exposição infantil se tornou algo comum, mesmo com os especialistas alertando sobre os perigos há anos. De produtores a consumidores. Não há distinção.
A situação culminou na aprovação do projeto de lei que cria regras para a proteção de crianças e adolescentes quanto ao uso de aplicativos, jogos eletrônicos, redes sociais e programas de computador. Apesar de tardia, a proposta ainda se faz necessária, afinal, ninguém sabe de fato o que, ou quem está por trás, vendo e produzindo conteúdos de crianças, mesmo que dos mais inocentes. Foi preciso uma denúncia, pesada, por sinal, da intervenção do Poder Legislativo, para que alguns tomassem consciência do quão grave é expor uma criança na internet, e na responsabilidade que isso traz aos pais e/ou responsáveis. A denúncia foi feita, o projeto aprovado, possivelmente vai virar uma lei, mas uma questão ainda paira sobre o assunto: e a família nisso tudo? A proposta prevê obrigações para os fornecedores e controle de acesso por parte de pais e responsáveis. E é justamente neste ponto que fica a dúvida: a família vai cumprir a sua parte?
Acostumado a transferir responsabilidades, o povo foi pego de surpresa ao se deparar com algo tão grave, mas que no dia a dia parecia algo natural. Acostumado a não cumprir com obrigações básicas, o questionamento que fica é: a família vai conseguir cumprir com suas obrigações de protetores legais de suas crianças e adolescentes? A temática se mantém complexa e traz mais dúvidas do que esclarecimentos. Afinal, quando se trata de colocar a população brasileira para cumprir com suas obrigações, não é possível simplesmente fechar os olhos e dizer tranquilamente: agora vai dar certo.
A imaturidade para uso da internet se impõe perante a sociedade mais uma vez, e comprova o que é dito há muito tempo: o povo não estava preparado para lidar com o “boom” das redes sociais. E, quando é necessário que a política cumpra parte do papel de pais e/ou responsáveis de crianças e adolescentes, mais uma vez se tem a prova do quanto ainda é preciso evoluir. O que fica deste cenário é apenas tristeza, por ver o quanto a humanidade vem falhando, seja na proteção, na construção de políticas públicas, na moral, e na prática do que se é pregado. A verdade disso tudo é que ainda é preciso muito trabalho para diminuir a distância do mundo ideal para o mundo real. E, que pouco está sendo feito para o encurtamento deste caminho, que o povo segue sem rumo, necessitando de políticas para dizer o que é certo e o que é errado, mesmo quando a realidade escancara dia a dia a diferença.
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