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Editorial

Urgência, não vitrine

Urgência, não vitrine

Em um mundo cada vez mais obcecado por holofotes, até as causas mais urgentes correm o risco de se transformarem em vitrine. A violência contra a mulher, que destrói vidas, marca famílias e deixa cicatrizes invisíveis, deveria ser uma prioridade inegociável da sociedade. Mas, em vez de atenção genuína e ação efetiva, muitas vezes é tratada como palco político, cenário para discursos ensaiados e manchetes chamativas. Quando o foco se perde nos holofotes, quem sofre fica invisível, e as soluções concretas ficam em segundo plano.

Vídeo de um vereador nesta semana, anuncia a criação de salas de acolhimento em unidades de saúde como uma grande conquista individual. A iniciativa, sem dúvida, é necessária e merece apoio — mas apresentada assim, desconsidera anos de trabalho silencioso de quem já lutava por essas mesmas mudanças. São diversos projetos existentes que buscam dar voz à causa. Há pelo menos seis anos, por exemplo, a advogada Telma Rodrigues, com o projeto ‘Meu Amar’, defende a criação desses espaços, a escuta qualificada e o apoio psicológico às mulheres vítimas de violência. Ela e outros grupos sociais vêm construindo essa rede de proteção muito antes de a pauta ganhar holofotes e atenção política. Ignorar essa trajetória é reduzir anos de esforço e dedicação a meras manchetes.

Enquanto isso, os números reforçam que a realidade não espera por holofotes. Divinópolis já registrou 918 casos de violência doméstica em apenas seis meses de 2025 — uma média de cinco ocorrências por dia. 16 mulheres foram vítimas de feminicídio desde 2019, entre assassinatos consumados e tentativas. Em um único fim de semana, 40 medidas protetivas foram expedidas pela Justiça, revelando que, embora as vítimas busquem ajuda, a rede de proteção ainda é insuficiente e sobrecarregada. Estatística dada com exclusividade pelo Agora, mas ignorada, mais uma vez, por quem copiou, ou usou outros veículos para exemplificar. Lamentável. Uns têm todo o trabalho de apurar, outros utilizam sem ennhum pudor.

  Voltando ao assunto gravíssimo, cada número carrega uma história de medo, ameaça e dor que não pode ser reduzida a estatística ou discurso político.

O problema é estrutural e exige mais do que anúncios pontuais: precisa de investimento permanente, articulação entre saúde, segurança e assistência social, capacitação de profissionais e campanhas contínuas de conscientização. É preciso valorizar e reconhecer quem já atua na linha de frente, porque são esses esforços que podem transformar a realidade, salvar vidas e fortalecer políticas públicas de fato. O protagonismo não deve estar nos cargos, mas na ação efetiva e coletiva.

Quando pautas urgentes viram vitrine, a principal vítima é quem sofre em silêncio. A dor das mulheres não pode ser reduzida a palanque ou cenário de marketing político. A luta não tem dono, não é bandeira de um único grupo e não cabe em holofotes isolados. Ela é coletiva, urgente e exige humildade, coragem e compromisso real para transformar dor em mudança concreta. Divinópolis precisa ouvir, investir e agir — antes que novas vidas sejam perdidas ou novas histórias de medo se tornem apenas números nas estatísticas.

As atividades anunciadas são, sem dúvida, muito importantes, e todos torcemos para que avancem e saiam do papel. Mas é fundamental que elas sejam efetivas, que gerem resultados reais para as mulheres que mais precisam, e não fiquem apenas como destaque nas redes sociais. O compromisso precisa ser com a vida, com a proteção e com a mudança concreta, e não com holofotes ou visibilidade política. Só assim a cidade poderá transformar a dor em ação e fazer com que as vítimas deixem de ser invisíveis.

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