Rotina de sangue

Entrar em uma casa e atirar em duas pessoas. Invadir uma academia cheia de clientes e executar um jovem. Planejar uma emboscada para matar o marido da própria amante. Cenas que parecem tiradas de séries policiais, mas são a rotina no país, e Divinópolis não fica de fora. A violência não apenas se espalhou; ela se banalizou. Tirar uma vida parece hoje tão simples quanto fazer compras ou pedir um sorvete. E isso deveria assustar muito, não virar rotina.
Uma servidora municipal foi morta a tiros na última sexta-feira, 29, pelo genro na comunidade rural de Buritis. A filha dela, companheira do agressor, está internada em estado gravíssimo. Dias depois, um jovem de 19 anos foi assassinado em uma academia, em plena luz do dia, diante de outras pessoas que não tiveram tempo de reagir. Não precisa ir muito longe para ver que a realidade não é restrita à “Cidade do Divino”. Em Itaúna, dois outros crimes passionais seguiram o mesmo roteiro nesta semana: vidas ceifadas por ciúmes, controle e relações adoecidas.
O que mais choca não são apenas os motivos — discussões, traições, desavenças pessoais —, mas a frieza com que esses crimes foram cometidos. Matar virou ato corriqueiro, uma ação sem peso. E a sociedade, aos poucos, parece se acostumar a assistir a tudo isso sem se indignar.
A morte da servidora, no encerramento do “Agosto Lilás”, expõe falhas graves. O assassino tinha histórico de agressão, mas seguia armado e livre. A campanha que defende os direitos das mulheres terminou com um feminicídio — símbolo de que conscientização sem ação não salva vidas. Em Itaúna, a emboscada que tirou a vida de um mototaxista revela outro padrão: crimes planejados com sangue-frio, movidos pelo sentimento de posse e ego ferido.
A violência doméstica é um problema crônico. Divinópolis registra cinco casos de agressão contra mulheres por dia, uma vítima a cada cinco horas. Esses números deixam claro que a violência deixou de ser exceção.
O Estado falha em proteger. Faltam monitoramento de agressores, redes de apoio acessíveis, menos burocracia em medidas protetivas. Mas a sociedade também tem culpa. Estamos anestesiados. Notícias de mortes viraram consumo rápido nas redes sociais. Tragédias que deveriam causar indignação são tratadas como parte do dia a dia.
A verdade é que qualquer desentendimento hoje pode acabar em morte. Uma discussão de casal, por ciúme, uma briga de bar, no trânsito — tudo vira gatilho para disparos. Essa normalização da violência destrói qualquer senso de segurança. Se alguém pode entrar em uma casa ou uma academia e atirar com naturalidade, significa que a vida perdeu peso.
Chegamos ao ponto em que matar parece simples. Simples demais. Enquanto não houver mudanças estruturais — punição rigorosa, prevenção real, proteção efetiva — seguiremos contando corpos e manchetes, enquanto a barbárie avança. Se a sociedade aceitou essa rotina, a guerra já está perdida.
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