Ruas que sangram

Há cidades em que a violência se esconde nas sombras, em vielas mal iluminadas ou bairros distantes do centro. Divinópolis não é mais assim. Aqui, a morte já não tem hora nem lugar: acontece sob o sol, em plena manhã de terça-feira, em uma rua comum do bairro Planalto, próximo a uma unidade de saúde. A vítima, um homem de 48 anos, saía para trabalhar quando foi executada com pelo menos oito disparos, em frente à própria casa, às 11h40. O atirador agiu com frieza, registrado por câmeras de segurança, sem se preocupar em esconder o rosto ou apressar os passos.
A cena é simbólica: não é apenas um crime, mas um retrato da impunidade que paira sobre a cidade. Em setembro, já são quatro homicídios em nove dias. No ano, 35 vidas foram interrompidas — uma média que transforma 2025 em um dos períodos mais sangrentos da história recente de Divinópolis. Os números assustam, mas o que choca ainda mais é a indiferença. A morte perdeu o poder de paralisar. Passou a ser apenas mais uma notícia, mais uma conversa rápida no WhatsApp, mais uma estatística. O mundo esfriou.
A Polícia Militar convocou, na segunda-feira, uma coletiva para atualizar os casos do fim de semana. Dois suspeitos foram presos, e a investigação de hoje já tem um nome apontado. Mas o esforço das autoridades parece sempre correr atrás do prejuízo. Crimes são elucidados, mandados de prisão são cumpridos, mas a cidade continua a viver um ciclo de violência que não se rompe. Cada assassinato alimenta a sensação de que qualquer um pode ser o próximo — e que a lei chega sempre tarde demais.
Não se trata apenas de segurança pública. É um sintoma social. A cena de uma execução em plena luz do dia, gravada por câmeras, sem que o criminoso demonstrasse pressa ou medo, mostra que a violência deixou de ser exceção. Divinópolis vive um processo de anestesia coletiva: acostumou-se a conviver com a tragédia. O que antes causaria revolta, hoje mal arranca um suspiro de espanto.
Essa indiferença é tão grave quanto os números. Uma cidade que se acostuma com a morte perde algo essencial: a humanidade. A rotina de corpos cobertos nas calçadas, de sirenes que se tornaram trilha sonora diária, de manchetes que soam repetitivas, transforma a violência em paisagem urbana. Quando o horror se torna normal, a sociedade começa a falhar em sua função mais básica: cuidar uns dos outros.
Há responsabilidades a cobrar. O poder público falha na prevenção e no enfrentamento. As ruas clamam por mais policiamento, inteligência investigativa, políticas sociais. Mas o problema não se resolve apenas com viaturas e câmeras. A cultura de violência exige respostas coletivas: educação, acolhimento, oportunidades, e uma comunidade disposta a enxergar e agir. Não adianta apenas exigir segurança se, como cidadãos, seguimos indiferentes.
O editorial de duas semanas atrás denunciava a frieza diante de um corpo ignorado em uma calçada. Hoje, denunciamos a banalização da execução em plena manhã. A diferença é que, em vez de espantar, essa nova cena confirma o que muitos já sentem: Divinópolis está sangrando, e poucos parecem dispostos a estancar essa hemorragia.
Um corpo na rua, coberto por um lençol, é um grito. Uma execução em plena manhã é outro ainda maior. São alertas de que estamos falhando, como governo, como sociedade, como cidadãos. Enquanto esses alertas não forem ouvidos, esses textos serão cada vez mais normais — e, o pior, sem comover ninguém.
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