O preço do descaso

Pedra cantada? A falta de investimentos do governo nas forças de segurança já trouxe prejuízos tão graves? Minas Gerais pode estar ccolhendo hoje os frutos de anos de descaso. Divinópolis é um exemplo claro, talvez um dos piores. A segurança pública ficou no campo das promessas, enquanto o que vem de cima só agrava a vida de quem precisa lidar diariamente com a violência. Desde o início do primeiro mandato, o governador Romeu Zema (Novo) escanteou os servidores da área, deixando-os em um limbo insustentável.
E o pior: não é preciso voltar muito no tempo para se assustar. Em abril, o governo publicou um decreto de contingência que, sob o pretexto de equilibrar as contas, cortou recursos de órgãos essenciais, incluindo a Polícia Militar. Diligências e treinamentos foram suspensos, créditos retornaram aos cofres públicos, e promessas de reorganização sem prejuízo à população se mostraram falsas. Viaturas paradas, restrição de recursos e policiais no limite definem o quadro real.
Não se trata de uma crise momentânea. Policiais civis, militares e penais denunciam negligência desde o início do primeiro mandato. Reposição salarial prometida em campanha nunca foi cumprida integralmente: apenas uma parcela foi paga, ignorando dois anos de perdas inflacionárias. Muitos enfrentam endividamento e desgaste psicológico, sem poder complementar a renda. O vale-alimentação, distribuído seletivamente, criou divisões internas.
O impacto na população foi imediato e trágico. Em apenas 10 dias de setembro, Divinópolis registrou quatro homicídios — e isso até o fechamento deste texto, porque, do jeito que a situação está, novas ocorrências podem surgir a qualquer momento. No mesmo dia, um garçom foi atingido por pelo menos dois tiros no bairro Danilo Passos, sendo um na cabeça; horas antes, um homem, de 48 anos, foi executado em frente à própria casa, no Planalto. Ainda nesta semana, uma mulher morreu após lutar 25 dias contra ferimentos provocados por agressão brutal com um banco de madeira na Comunidade do Choro.
Antes de uma entrevista coletiva da Polícia Civil, no mês passado, que detalhou outro homicídio, o delegado desabafou sobre a fragilidade da delegacia: pessoal e estrutura insuficientes, recursos limitados e profissionais sobrecarregados. Crimes são solucionados, mas a cidade continua presa a um ciclo de violência que não se rompe, refletindo o descaso crônico das autoridades e a falência das políticas de segurança pública.
A Assembleia Legislativa precisou intervir, alertando para a defasagem salarial de 44% e o risco de paralisação. Minas Gerais teve superávit de R$ 5 bilhões em 2024, mas a prioridade do governo continua sendo ajustes contábeis e cortes em áreas essenciais. Enquanto isso, a criminalidade cresce e a população se sente desprotegida. A troca de comandantes que defendiam a categoria e a ausência em reuniões mostram o descaso claro com os profissionais.
O preço dessa negligência é pago com vidas. A falta de investimento e a priorização de contas sobre pessoas não são números: são homicídios, feridos e medo. E agora, com Zema tendo a perspectiva de disputar a Presidência, a preocupação com a segurança deixa de ser só de Minas Gerais e passa a atingir todo o Brasil. O estado sangra, e o tempo é curto: sem medidas concretas, as tragédias tendem a continuar.
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