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Editorial

Hipocrisia

Hipocrisia

Por semanas, o Congresso criticou o governo federal cobrando a derrubada do aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), inclusive chegou a falar na necessidade de cortes de gastos maiores: "E talvez seja o que o país esteja precisando para todo mundo sair da sua zona de conforto. Porque está todo mundo olhando a situação, mas ninguém quer abrir mão de nada". Sim, inclusive o senhor. 

Motta, que chegou a dizer que “o governo [federal] precisa (...) o mínimo do dever de casa do ponto de vista do corte de gastos”, é o mesmo que agora que apresentou, através da Mesa Diretora, um projeto de lei para permitir que deputados acumulem receber aposentadoria e salário. Atualmente, o político não pode receber aposentadoria enquanto estiver com mandato ativo - apenas quando abre mão do salário. A justificativa é de que o modelo atual  "representa um obstáculo à livre atuação parlamentar e ao pleno exercício da cidadania". 

Junte-se a isso, o pedido do Supremo Tribunal Federal (STF) de esclarecimentos sobre a destinação de R$ 8,5 milhões em emendas parlamentares. A suspeita é de um novo orçamento secreto, de que “o código de identificação dos pagamentos teria sido alterado para burlar as exigências de transparência e rastreabilidade impostas pelo STF”.

O que resta desta equação é a hipocrisia. Publicamente é em frente às câmeras, o discurso é firme: o governo precisa cortar gastos para equilibrar as contas. Agora, nas entrelinhas e nem tão sutil assim, determinados trabalham no sentido contrário, inchando a máquina pública e criando novos gastos. Apenas no ano passado foram gastos R$ 50 milhões em emendas parlamentares. Um gasto totalmente desequilibrante para quem precisa governar o país. 

Não questiona-se a importância de inúmeras emendas, especialmente aquelas destinadas à Saúde, uma das áreas mais sensíveis do país. No entanto, quantas são destinadas apenas por puro e pleno interesse política? Para fortalecer seus próprios redutos eleitorais? E, em momento de turbulência financeira, por que nunca cortam na própria carne. Cobram cortes de gastos a todo momento, mas rejeitam qualquer proposta que envolvam a si próprios. Existe um claro descompasso entre o que políticos pregam e fazem. Todos esbarram nas próprias vaidades e privilégios. 

Existem, obviamente, bons e maus políticos. Mas, a classe como toda, recusa-se a ser exemplo para o governo federal. Quer continuar sugando e controlando a máquina pública irrestritamente. E, tudo de ruim, culpa-se o governo federal. Assim, fica-se fácil trabalhar. A responsabilidade das mazelas está sempre no Executivo, nunca daqueles responsáveis por legislar e discutir o orçamento. 

É preciso assumir a responsabilidade. Entender que os políticos também são responsáveis por qualquer momento do país, seja ele bom ou ruim. Não adianta querer celebrar as conquistas, mas não dividir os prejuízos das situações piores - independente de ser base ou oposição. 

É preciso que os políticos tenham uma crise de consciência e, antes de olhar para os outros, olhem para si. 

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