Até livro tem lado?

O “Cruleitores” nasceu inspirado no “Galeitura”, criado pela torcedora atleticana Carolina Marques a partir do movimento de leitura incentivado pelo meio campista do Atlético Gustavo Scarpa. A ideia era simples: aproximar futebol e literatura.
O “Galeitura” surgiu como uma forma de reunir torcedores do Atlético em torno da leitura. Carolina, estudante de Letras e leitora desde a infância, levou adiante a proposta e viu o projeto crescer até chegar a cerca de 500 integrantes. O nome, uma combinação de Galo e leitura, ganhou ainda uma derivação: os ‘Galeitores’.
A ideia atravessou a rivalidade quando torcedores do Cruzeiro decidiram criar o “Cruleitores”, seguindo a mesma proposta. Era uma iniciativa que poderia simplesmente ampliar uma corrente positiva. Mas, poucas horas depois de criada, a conta foi alvo de ataques e acabou apagada.
Os responsáveis relataram ter recebido mensagens de diferentes torcedores, principalmente cruzeirenses, com insultos pessoais e até frases como “morra logo”. Também houve manifestações positivas, inclusive de torcedores rivais. Mas o volume das agressões foi suficiente para interromper uma iniciativa que sequer tinha como objetivo falar de rivalidade.
É difícil não perceber o absurdo da situação. Uma proposta para incentivar a leitura virou motivo de ataque porque veio de um determinado lado. O conteúdo deixou de importar. A intenção deixou de importar. Restou a camisa.
Rivalidade faz parte do futebol. É parte da graça, da paixão e da identidade de quem acompanha um clube. O problema começa quando ela deixa de ficar restrita ao campo e passa a determinar o que pode ou não ser reconhecido como positivo. Se a ideia veio do rival, não serve. Se o outro fez primeiro, não pode ser reproduzida. Se é boa, ainda assim precisa ser rejeitada porque nasceu do outro lado.
O episódio mostra como essa lógica empobrece até aquilo que deveria unir. O futebol, que já é capaz de mobilizar multidões, criar vínculos e produzir iniciativas coletivas, também pode transformar qualquer diferença em motivo para hostilidade.
Por isso, a reação do próprio “Galeitura” merece atenção. Ao saber do Cruleitores, o projeto atleticano publicou uma mensagem de apoio: “Gente lendo gera gente lendo e é isso que importa”. É uma resposta simples, mas que rompe com a lógica de que toda iniciativa precisa carregar uma bandeira de rivalidade.
E a corrente não parou ali. Inspirados pelo “Galeitura”, torcedores do Corinthians também criaram o ‘Fiel Leitura’. Uma ideia nasceu em uma torcida, atravessou outra e chegou a uma terceira. É assim que uma boa iniciativa deveria crescer: sendo compartilhada, adaptada e multiplicada.
Nenhum torcedor precisa abrir mão da paixão pelo próprio clube para reconhecer algo positivo no rival. Uma boa ideia não perde valor porque nasceu do outro lado. E incentivar a leitura não deveria ser uma disputa de território.
Quando até um projeto de livros é tratado como ameaça por causa da camisa de quem o criou, a rivalidade já deixou de cumprir seu papel. O futebol pode ter lados. A cultura, o conhecimento e as boas ideias não precisam ter.
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