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Editorial

Marcas cruéis 

Marcas cruéis 

Uma série que a princípio retrata a prisão de um adolescente de 13 anos, suspeito de cometer um homicídio. As primeiras cenas de “Adolescência”, disponível na Netflix, e que viralizou nas últimas semanas, chocam. Policiais armados invadem a casa de uma família “comum”, e levam o filho adolescente preso. A angústia, o desespero, a busca dos pais do “porquê” daquilo estar acontecendo angustiam. À primeira vista, a produção parece retratar a investigação de um crime. Mas o desenrolar mostra na verdade os efeitos do bullying, da violência online e, principalmente, da cultura incel. A narrativa joga luz sobre o impacto corrosivo das redes sociais e de influenciadores misóginos sobre alguns adolescentes, e vai de encontro a algo já abordado pelo Agora diversas vezes neste espaço: o que está acontecendo com a sociedade, que discursos de ódio foram normalizados? Qual foi o momento que a humanidade se perdeu a ponto de “passar pano” para narrativas que estão carregadas de ódio, de misoginia, mas se escondem por trás de justificativas religiosas e moralistas? A série, sem sombra de dúvidas, vai além de um alerta para pais, responsáveis e familiares de adolescentes. A produção vai muito mais do que alertar sobre a vigilância que deve-se ter sobre os adolescentes. Ela atenta sobre os caminhos que a humanidade tem tomado como um todo. Afinal, por muitas vezes, os adolescentes apenas replicam nos ambientes públicos aquilo que aprendem em suas casas. 

É fato que o ambiente online é o “terreno” propício para que essas ideias sejam plantadas e fertilizadas. Mas o universo em que eles estão inseridos, o contexto familiar, os discursos no entorno, tem o poder de potencializar essa cultura incell, que nada mais é do que uma abreviação de “involuntary celibates” (celibatários involuntários). Para ficar mais claro, segundo o dicionário Oxford, o termo é utilizado para definir um membro de uma comunidade online de jovens que se consideram incapazes de atrair mulheres sexualmente, normalmente associado a visões hostis em relação a mulheres e homens sexualmente ativos. Com teorias delirantes, e distantes da realidade, essa subcultura evidencia o ressentimento, e culmina em atos de violência. Ao abordar temas como masculinidade tóxica e comportamento dos adolescentes nas redes sociais, a produção provoca uma série de reflexões. Uma delas é: como a escola pode exercer um papel mais ativo e efetivo no combate ao bullying? Outra: como você tem sua parcela de responsabilidade na construção desse mundo que está cada vez mais individualista?

Entre bullying, violência online, e cultura incell, a série fala também sobre a liberdade. Sobre os caminhos escolhidos, por meio de atitudes, palavras e comportamentos todos os dias. “Adolescência” incomoda, pois desnuda o fracasso da humanidade como um todo. Escancara os retrocessos significativos da sociedade quando o assunto é olhar para o outro, reconhecer os seus erros e corrigi-los. Ao trazer a estrutura da cultura machista à tona, a série mostra que a liberdade de subjugar o outro – a mulher especificamente – tem trazido marcas severas para a humanidade. É tempo de recalcular a rota.

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