Justiçamento

O que o descrédito e a descrença são capazes de fazer? Até onde um povo pode chegar quando já se perdeu a esperança de ver o que é certo sendo feito? Essas perguntas se juntam a tantas outras que não têm respostas, porém deveriam ser feitas pelos brasileiros, pois o contexto social no país piora a cada dia. Justiçamento. Muita gente não conhece, mas esse é o termo para definir a conhecida expressão “justiça com as próprias mãos”. E, de uns tempos para cá, a população tem visto o aumento desse movimento que levanta um debate necessário. Afinal, o que está por trás dessas atitudes? Para alguns especialistas o povo começa a praticar a “justiça com as próprias mãos” quando há: desconfiança no sistema de justiça, demora na punição, vingança, ideia de "olho por olho, dente por dente" e excesso de força na legítima defesa. Em um país sucateado pelo poder público, e onde o Poder Judiciário é falho e tardio, este “movimento” poderia até ser considerado normal, porém o que muitos tem se esquecido é que se trata de uma prática criminosa que só gera mais violência.
Os noticiários estamparam a morte de Yara Paulino da Silva, de 27 anos, nesta segunda-feira, 24. Ela foi linchada e morta em Rio Branco, no Acre, após acreditarem que teria matado a própria filha, um bebê de apenas dois meses. Segundo a Polícia Civil, porém, a história seria apenas um boato. Yara foi executada com golpes de ripa e machado, no que a polícia considerou se tratar de um "tribunal do crime". A Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) foi chamada para investigar a suposta morte da criança, com a informação de que um corpo de criança teria sido encontrado em uma área de mata no conjunto habitacional Cidade do Povo. Chegando lá, porém, a equipe do Instituto Médico Legal (IML) concluiu que a ossada se tratava de um animal, possivelmente um cachorro. O caso de Yara, assim como as perguntas feitas no início deste texto se perdem em meio a tantos outros. Mas, faz um alerta importante: é mais do que preciso que os governantes brasileiros, e o povo se volte para as mudanças necessárias no país, caso contrário esse “Justiçamento” ganhará cada mais espaço, e inocentes serão vítimas de uma população que está apenas cansada de uma Justiça falha e tardia, e de um Estado que segue sucateado, mesmo tendo os recursos necessários para evoluir.
O contexto se agrava a cada ano, e alinhado com discursos de ódios dos governantes, e com as fake news, mostra que não é mais possível fechar os olhos para esse crime que cresce em uma escalada alarmante. Por trás do cansaço, da desesperança e da descrença, tem um sistema judiciário e políticas públicas falhas, que alimentam a violência e trazem retrocessos significativos para a nação. Afinal, a partir do momento em que a sociedade resolve fazer justiça com as próprias mãos, é porque ela não confia mais no estado punitivo nem no monopólio do poder estatal de punir, ou porque imagina que o Estado é inerte e as respostas ficam muito aquém do que se espera. É urgente que a população abra os olhos para o que o país realmente precisa, e cobre de seus governantes, pois essa falta de interesse tem criado um movimento preocupante e cada vez mais intenso.
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