Filhos não são armas de vingança

Justamente no Dia dos Pais, quando famílias se reuniam para celebrar aqueles que deveriam representar proteção, cuidado e presença, duas meninas de apenas 3 e 5 anos eram encontradas mortas dentro de um carro, em São Paulo. O pai, de 24 anos, foi preso em flagrante e, segundo a Polícia Militar, havia se apresentado à polícia afirmando ter matado as próprias filhas. De acordo com o boletim de ocorrência, a motivação estaria relacionada ao ciúme da ex-companheira.
É difícil não enxergar a crueldade do contraste. Enquanto a data lembrava a importância da figura paterna, duas crianças eram vítimas justamente de quem deveria protegê-las. Mas o caso também expõe o que acontece em diversas famílias: o que acontece com alguns homens quando o relacionamento com a mãe dos filhos termina?
Segundo o relato da mãe das meninas, o casal estava separado desde março, depois de episódios de agressão e traição. Ela afirmou ainda que, após o rompimento, passou a ser perseguida e ameaçada pelo ex-companheiro. No dia anterior ao crime, depois de receber uma mensagem dele dizendo que aquela seria a última vez que veria as filhas, a mulher passou a noite acompanhada de familiares enquanto procurava pelas crianças.
Quando o vínculo amoroso termina, há homens que parecem não conseguir separar o papel de companheiro do papel de pai. Como se, ao perder a mulher, perdessem também o direito, ou a disposição, de continuar exercendo a paternidade de forma saudável. E, em alguns casos, a própria relação com os filhos parece depender da existência da relação com a mãe.
Os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ajudam a dimensionar essa mudança familiar. Após os rompimentos conjugais, 87,6% das crianças passam a ficar sob a guarda das mães. Em 5,4% dos casos, a guarda é compartilhada entre os ex-companheiros, enquanto 5,3% ficam com o pai e cerca de 1,6% passam a viver com outros responsáveis.
Esses dados não significam que a separação precise afastar um pai dos filhos. Mas mostram uma realidade na qual, depois do fim de uma relação, a rotina das crianças frequentemente passa a ser organizada principalmente pelas mães. E é justamente aí que a paternidade deveria ser colocada à prova.
Porque estar presente enquanto se está ao lado da mãe pode ser fácil. Difícil é continuar sendo pai quando já não existe o relacionamento que unia os dois adultos. É possível que um homem exerça com dedicação o papel de padrasto, seja presente na rotina dos filhos da companheira, cuide deles e demonstre afeto, mas encontre dificuldades para oferecer a mesma presença aos próprios filhos depois que o relacionamento termina. A questão, então, deixa de ser apenas a separação e passa a ser a capacidade de compreender que filho não é extensão de relacionamento.
Filhos não são propriedade. Não pertencem à mãe, não pertencem ao pai e, principalmente, não pertencem ao conflito dos dois. Uma criança não tem responsabilidade pela traição, pela agressão, pelo ciúme, pelo fim do relacionamento ou por qualquer ressentimento acumulado entre adultos. Ainda assim, são justamente elas que mais são colocados no centro da disputa e as que mais sofrem com toda a briga que jamais deveriam lhes pertencer.
No caso das duas meninas, o que mais assombra não é apenas a brutalidade do crime, mas a forma como uma disputa entre adultos teria alcançado duas crianças que não tinham qualquer participação nela. Elas não tinham idade para sequer entender o que aconteceu entre os dois.
O crime não atingiu apenas duas vidas. Arrancou delas tudo o que ainda poderiam viver: crescer, brincar, estudar, fazer escolhas, construir suas próprias histórias e chegar a um dia dos pais entendendo o significado de paternidade. Nada pode devolver essas possibilidades. Nenhuma explicação ou arrependimento será capaz de reconstruir o futuro que foi tirado delas.
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