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Editorial

Quem protege também precisa ser protegido 

Por Jornal Agora· 2 min de leitura
Quem protege também precisa ser protegido 

Há estatísticas que revelam o tamanho da violência nas ruas, outras expõem a violência que acontece em silêncio. Os dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram que mais policiais morreram por suicídio do que em confrontos ao longo de 2025 em Minas Gerais. Um estado que costuma ser reconhecido pela qualidade de suas forças de segurança não pode tratar esse número como um detalhe administrativo. Ele representa uma crise humana que exige a mesma atenção dedicada ao combate ao crime. 

Os números ajudam a dimensionar essa contradição. Em 2025, Minas registrou 14 mortes de policiais por suicídio, enquanto quatro agentes morreram em confrontos. Em 2024, haviam sido 10 suicídios. Em apenas um ano, o crescimento foi de 40%. Ao mesmo tempo, o estado permanece entre aqueles com menor número de mortes de policiais em ações operacionais, resultado frequentemente apontado como indicador da eficiência das corporações.

Ser policial significa conviver diariamente com violência, tensão, sofrimento e decisões que podem definir a vida ou a morte de outras pessoas. É uma profissão construída sobre a disciplina e a capacidade de agir mesmo diante do medo. Porém, durante muito tempo, criou-se também a ideia de que o policial precisa suportar tudo sozinho. Demonstrar fragilidade, pedir ajuda ou admitir sofrimento ainda é visto, em muitos ambientes, como sinal de fraqueza, e essa cultura do silêncio cobra um preço alto.

O próprio Anuário aponta que o suicídio entre policiais não pode ser explicado por um único fator. Trata-se de um fenômeno complexo, associado ao estresse ocupacional, à exposição contínua à violência, ao sofrimento psíquico, às dificuldades para buscar atendimento especializado e a outros fatores que se acumulam ao longo da carreira. Não é um problema individual, é um problema institucional, que precisa ser enfrentado como política pública permanente e não apenas após cada nova tragédia. 

É justamente aí que está a maior contradição. Cobra-se desses profissionais preparo emocional para enfrentar as situações mais extremas, equilíbrio para agir sob pressão e coragem para proteger a população. Mas pouco se discute quem protege esses homens e mulheres quando eles próprios deixam de suportar o peso da profissão. Viaturas, equipamentos e tecnologia são fundamentais, mas não substituem políticas efetivas de prevenção, acompanhamento psicológico e promoção da saúde mental dentro das corporações.

Cada policial que tira a própria vida representa muito mais do que um número em uma tabela. É uma família devastada, uma carreira interrompida e uma perda para a sociedade. Quando o suicídio supera as mortes em confrontos, o problema deixa de ser apenas da segurança pública e passa a ser também da saúde pública, da gestão e da responsabilidade do Estado.

Minas Gerais tem motivos para se orgulhar de seus policiais. Mas o verdadeiro reconhecimento não pode acontecer apenas quando eles salvam vidas nas ruas. Precisa acontecer também quando a própria vida deles pede socorro.



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