Fio invisível que antecede o fim

A cada novo caso de violência contra a mulher, o país se pergunta como foi possível chegar a esse ponto. A resposta, porém, parece cada vez mais evidente: não se trata de episódios isolados, mas de uma sequência de violência que se repete diariamente e que, muitas vezes, terminam da forma mais cruel. O caso da capitão da Polícia Militar Michele Leão Azevedo, encontrada morta com múltiplas lesões pelo corpo em Belo Horizonte, reacende essa realidade. Antes mesmo da conclusão das investigações, já existem relatos de um relacionamento marcado por controle, separações, reconciliações e sinais de violência. Elementos que aparecem com frequência em histórias que acabam em feminicídio.
O Brasil registrou, em 2025, o maior número de feminicídios da história. Minas Gerais aparece como o segundo estado com mais ocorrências do país, atrás apenas de São Paulo. Os números mostram que a violência contra a mulher não é uma sucessão de casos, mas um problema estrutural, sustentado por relações de poder, controle e desigualdade que ainda persistem na sociedade.
Como aponta a socióloga Heleieth Saffioti, a violência doméstica é marcada pela rotinização, onde o controle psicológico, as ameaças e as pequenas restrições de liberdade vão se naturalizando no cotidiano do casal. A dinâmica da relação se fixa na própria tensão, transformando o afeto em subordinação. Antes do desfecho fatal, quase sempre existe um histórico de violência psicológica, moral, patrimonial, física ou sexual. Há ameaças, manipulações, isolamento, controle da rotina, medo constante e tentativas frustradas de romper a relação. A morte é apenas o ápice de uma estrutura de domínio que já vigorava muito antes.
É por isso que cada caso precisa ser analisado para além da investigação criminal. A responsabilização dos culpados é indispensável, mas não resolve, sozinha, um problema que continua produzindo novas vítimas. Enquanto a violência for tratada apenas quando já se tornou irreversível, o país continuará contabilizando mulheres mortas.
Também é preciso abandonar a ideia de que esses crimes surgem de explosões momentâneas. A violência de gênero costuma seguir um processo gradual, alimentado por relações abusivas, pelo sentimento de posse e pela tentativa de controlar a vida da mulher. Quando esses sinais são ignorados ou minimizados, cria-se um ambiente onde a agressão encontra espaço para crescer.
Nenhuma estatística é formada apenas por números. Cada feminicídio representa uma mulher que teve a vida interrompida, uma família destruída e uma rede inteira marcada pela ausência. Quando Minas Gerais figura entre os estados com mais vítimas e o Brasil alcança um recorde histórico, não há motivo para acomodação. Há um alerta que precisa ser ouvido.
Combater o feminicídio exige leis rigorosas, investigação eficiente e responsabilização dos autores, mas exige, sobretudo, uma mudança coletiva na forma como a violência contra a mulher é reconhecida e enfrentada. Enquanto os sinais continuarem sendo relativizados e os ciclos de abuso permanecerem invisíveis para parte da sociedade, novas histórias continuarão tendo o mesmo desfecho. E nenhuma sociedade pode aceitar como rotina aquilo que deveria provocar indignação permanente.
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