Não é um ranking. São vidas

Há rankings que despertam orgulho. Outros deveriam provocar desconforto. Divinópolis aparecer como a 6º cidade mais violenta de Minas Gerais e em 107º com maior índice de mortes violentas intencionais do Brasil em 2025 não é apenas um dado estatístico, é um sinal de alerta. Um retrato que exige reflexão e, principalmente, ação. Nenhuma cidade deveria se acostumar a ocupar uma posição em uma lista construída a partir de vidas interrompidas.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado nesta quinta-feira, 23, considera as chamadas mortes violentas intencionais, categoria que reúne homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenção policial. Não se trata, portanto, de um episódio isolado ou de uma percepção subjetiva sobre segurança. São indicadores que refletem uma realidade concreta e que colocam Divinópolis na 107ª posição nacional e na sexta colocação entre os municípios mineiros.
Esses números não surgem por acaso. São resultado de uma sucessão de crimes que, infelizmente, passaram a ocupar espaço frequente no noticiário. Homicídios, feminicídios, disputas ligadas ao tráfico, mortes que rapidamente dão lugar a outras manchetes. Aos poucos, corre-se o risco de transformar a violência em rotina. E talvez esse seja um dos aspectos mais preocupantes. Quando a sociedade deixa de se surpreender com a perda de vidas, ela começa também a perder parte da capacidade de reagir.
É preciso evitar dois extremos igualmente perigosos. O primeiro é tratar o ranking como uma sentença definitiva sobre a cidade, como se Divinópolis estivesse condenada à violência. O segundo é minimizar o resultado, atribuindo-o apenas aos números ou ao tamanho da população. Nenhuma dessas posturas contribui para enfrentar o problema. O levantamento deve servir como diagnóstico. E todo diagnóstico só faz sentido quando leva à busca por soluções.
Segurança pública não se constrói apenas com policiamento, embora ele seja indispensável. Também depende de investigação eficiente, punição dos responsáveis, combate às organizações criminosas e fortalecimento da inteligência policial. Mas vai além. Exige políticas voltadas para educação, inclusão social, proteção às mulheres, oportunidades para os jovens e prevenção da criminalidade. Violência não começa no momento do disparo ou da agressão; ela costuma ser consequência de problemas que se acumulam muito antes.
Isso não significa diminuir a importância do trabalho das polícias, do Ministério Público ou do Judiciário. Pelo contrário. A investigação eficiente, a responsabilização dos autores e o combate às organizações criminosas são indispensáveis. Mas nenhuma cidade conseguirá reduzir seus índices de violência de forma consistente se não enfrentar as causas que alimentam esses crimes. Segurança pública é resultado de um conjunto de políticas permanentes, e não de medidas isoladas tomadas apenas em momentos de crise.
Os rankings mudam de um ano para outro. As posições sobem e descem. Mas cada número permanece carregando uma história interrompida, uma família marcada pela perda e uma comunidade atingida pelo medo. É justamente por isso que Divinópolis não deve enxergar esse levantamento como mera curiosidade estatística. Ele representa um chamado para que poder público, instituições e sociedade tratem a segurança como prioridade permanente.
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