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Editorial

Quem governa a indefinição? 

Por Jornal Agora· 3 min de leitura
Quem governa a indefinição? 

As convenções partidárias deveriam representar um dos momentos de maior clareza da democracia. É quando os partidos começam a transformar intenções em projetos e pré-candidaturas em compromissos políticos. Mas, em Minas Gerais, o cenário caminha na direção oposta. Faltando poucos dias para o encerramento desse processo, o Estado assiste a uma sucessão de indefinições, mudanças de rumo, notas públicas, versões conflitantes e articulações de última hora que deixam o eleitor sem saber, afinal, quem realmente pretende assumir o maior desafio da política mineira: governar um estado mergulhado em uma grave crise fiscal.

O caso envolvendo o senador Cleitinho Azevedo acabou se tornando o retrato dessa desorganização. Até terça-feira, 28, aliados afirmavam publicamente que sua candidatura ao Governo de Minas era questão de tempo. O próprio senador deu sinais nesse sentido ao publicar um vídeo que reforçava sua entrada na disputa. Horas depois, o Republicanos anunciou que ele não seria o candidato da legenda. O senador afirmou ter sido surpreendido pela decisão e disse que tomou conhecimento da notícia pelos veículos de comunicação. Muitos enxergam recuo ou medo. Outros falam em estratégia. Há quem veja como rompimento político. Independentemente da interpretação, o fato é que um processo acabou produzindo ainda mais incertezas.

Tancredo Neves costumava dizer que "esperteza, quando é muita, come o dono". A frase continua atual porque há uma diferença enorme entre habilidade política e excesso de cálculo. Articulações não podem se transformar em um jogo permanente de conveniências, onde as decisões parecem mudar conforme o ambiente político. Quando a política passa mais tempo explicando seus movimentos do que apresentando seus projetos, alguma coisa saiu do lugar.

E talvez esse seja o maior problema. Enquanto partidos reorganizam chapas, discutem alianças e redefinem estratégias, Minas Gerais continua enfrentando problemas que não esperam o calendário eleitoral. O estado iniciou 2026 com disponibilidade de caixa líquida negativa em mais de R$ 11 bilhões, apresenta a pior situação fiscal do país e ainda projeta um déficit de cerca de R$ 5 bilhões para este ano. Quem pretende disputar o Palácio Tiradentes não está concorrendo apenas a um cargo. Está se propondo a administrar um dos cenários financeiros mais delicados entre todas as unidades da federação.

Por isso, o debate deveria estar em outro nível. Em vez de a política girar quase exclusivamente em torno de quem será candidato, quem desistiu, quem perdeu espaço ou quem ganhou uma nova aliança, Minas precisa ouvir propostas concretas para enfrentar o rombo fiscal, recuperar investimentos, fortalecer a saúde, a educação, a infraestrutura e criar condições para o desenvolvimento econômico. Negociações partidárias fazem parte da democracia. O problema surge quando elas ocupam todo o espaço e substituem a discussão sobre os desafios reais do estado.

Ainda há tempo para que o cenário se organize até o fim das convenções. Mas o que já ficou evidente é que Minas não precisa apenas de candidatos. Precisa de lideranças capazes de transmitir firmeza, assumir responsabilidades e demonstrar que compreendem o tamanho da missão que pretendem disputar. Governar Minas Gerais não é uma tarefa simples, e justamente por isso, a política mineira não pode continuar parecendo uma disputa de bastidores quando o Estado espera, com urgência, respostas para problemas que já passaram da hora de serem enfrentados.


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