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Editorial

Imprudência

Por Jornal Agora· 2 min de leitura
Imprudência

Em Divinópolis, mais um fim de semana terminou com uma cena que, infelizmente, já se tornou comum: um motociclista perdeu a vida após um acidente de trânsito. As imagens registradas na avenida Autorama mostram um carro realizando uma conversão e atingindo a motocicleta. Em poucos segundos, uma decisão tomada ao volante foi suficiente para interromper uma vida e mudar para sempre a de várias outras pessoas.

O caso ganha um peso ainda maior porque acontece justamente quando a cidade acompanhou, nesta segunda-feira, 3, o julgamento de um motorista acusado de matar duas pessoas que estavam em uma motocicleta, em um acidente ocorrido em 2020. Seis anos depois, familiares ainda esperam por uma resposta da Justiça. O contraste entre os dois episódios evidencia que quando um caso finalmente chega ao tribunal, novos acidentes continuam acontecendo.

Os números mostram que não se trata de episódios isolados. Somente entre janeiro e junho de 2026, Divinópolis registrou 2.564 acidentes de trânsito, com 841 vítimas. São milhares de ocorrências em apenas seis meses, uma estatística incompatível com a ideia de que esses casos sejam simples fatalidades. 

Nesse cenário, os motociclistas aparecem quase sempre entre os mais vulneráveis. Diferentemente de quem está protegido pela estrutura de um automóvel, quem conduz uma moto tem o próprio corpo como principal escudo. Qualquer erro, próprio ou de terceiros, costuma produzir consequências muito mais graves. Por isso, uma conversão sem a devida atenção, uma ultrapassagem indevida, o excesso de velocidade ou o desrespeito à preferência deixam de ser apenas infrações e passam a representar riscos concretos de morte.

É comum que, após cada tragédia, a discussão fique restrita à procura de um culpado específico. A responsabilidade individual, evidentemente, precisa ser apurada e, quando houver crime, punida. Mas limitar o debate apenas ao processo judicial significa ignorar o problema maior. O trânsito é um ambiente coletivo, onde cada decisão interfere diretamente na segurança do outro. A imprudência não começa no momento do impacto. Ela se constrói antes, em pequenos comportamentos diários como a conversão apressada, o celular ao volante, o avanço do sinal, a velocidade acima do permitido, a falsa sensação de que "não vai acontecer comigo".

Também é preciso reconhecer que a resposta não depende exclusivamente da consciência dos condutores. Educação permanente para o trânsito, fiscalização eficiente, engenharia viária capaz de reduzir conflitos entre veículos e campanhas que produzam mudança de comportamento são políticas públicas indispensáveis. Nenhuma cidade reduz acidentes apenas contando com o bom senso de seus motoristas.

O julgamento desta segunda-feira olha para um acidente que aconteceu há anos. A morte registrada neste fim de semana lembra que o próximo processo já pode estar sendo construído neste exato momento, em alguma esquina da cidade. A verdadeira justiça, porém, não será medida apenas pelas condenações que vierem. Ela será alcançada quando tragédias como essas deixarem de fazer parte da rotina de Divinópolis. Porque nenhuma sentença devolve uma vida. O que salva vidas é impedir que o acidente aconteça.


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