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Editorial

Voto não é um detalhe

A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais, a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) permanece tecnicamente empatada, enquanto a abstenção segue como uma preocupação para a participação democrática.

Por Redação Jornal Agora · Redação· 3 min de leitura
Voto não é um detalhe

A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais, a disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) permanece tecnicamente empatada, enquanto a abstenção segue como uma preocupação para a participação democrática. O levantamento Meio/Ideia, divulgado nesta quarta-feira, 21, aponta 51% dos votos válidos para o senador e 49% para o presidente, diferença dentro da margem de erro de 2,5 pontos percentuais. Em uma eleição tão acirrada, cada voto ganha relevância. Ainda assim, a proximidade do resultado não pode servir apenas para intensificar a disputa: deveria aumentar a responsabilidade dos candidatos diante do eleitorado.

A pesquisa mostra que 83,7% dos entrevistados afirmam já estar decididos sobre o voto, enquanto 16,3% ainda admitem mudar de escolha. Entre esses últimos, 16% apontam as propostas do próprio candidato e outros 16% citam o desempenho nos debates como fatores capazes de influenciar a decisão. Os números indicam que, mesmo na reta final, há espaço para o convencimento. A questão é como esse tempo será utilizado: para esclarecer projetos e apresentar compromissos ou para ampliar ataques, alimentar a rejeição e transformar o adversário no único assunto da campanha?

O eleitor precisa saber o que cada candidatura pretende fazer, quais prioridades estabelece e como planeja enfrentar os problemas do país. A disputa pelo voto não deveria se resumir a convencer a população de que o outro candidato representa uma ameaça. Quando o medo ocupa o lugar das propostas, o debate perde qualidade e a escolha fica limitada à rejeição, em vez de se apoiar na avaliação consciente de alternativas. Em uma eleição decidida por uma diferença tão estreita, essa responsabilidade deveria ser ainda maior.

Outro dado merece atenção: entre os eleitores que ainda podem mudar de voto, 39,3% responderam que não sabem o que os levaria a rever a escolha. A indefinição reforça a importância de uma campanha capaz de explicar, e não apenas de provocar reações. Apoios políticos, declarações de personalidades e acusações podem movimentar o ambiente eleitoral, mas não substituem respostas concretas sobre as decisões que afetarão a vida da população nos próximos anos.

Há, porém, outra questão que não pode desaparecer em meio à contagem de votos e às projeções sobre quem vencerá: a participação eleitoral. Uma disputa apertada chama a atenção para cada voto depositado na urna, mas também deveria provocar reflexão sobre quem não comparece. A ausência pode ter diferentes motivos e não deve ser automaticamente interpretada como desinteresse. Ainda assim, quando uma parcela expressiva do eleitorado deixa de participar, é necessário discutir as razões desse afastamento e o papel das campanhas na recuperação da confiança na política.

Não cabe responsabilizar individualmente quem não vota sem considerar as circunstâncias, mas tampouco tratar a abstenção como um detalhe secundário. A democracia não se fortalece apenas com uma disputa competitiva. Depende também de cidadãos que possam participar e de candidaturas que apresentem razões para serem escolhidas, em vez de se limitarem a pedir votos contra o adversário.

Os últimos dias de campanha deveriam ser decisivos pela qualidade das propostas, pela clareza dos compromissos e pela capacidade de dialogar com quem ainda tem dúvidas. Se cada voto pode fazer diferença, candidatos e partidos precisam demonstrar que compreendem o peso dessa responsabilidade. Afinal, vencer uma eleição é conquistar votos; representar um país exige muito mais do que derrotar o concorrente. O que ficará para o eleitor depois que os ataques terminarem e as urnas definirem o resultado?


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