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Editorial

Infância sem proteção

Por Redação Jornal Agora · Redação· 3 min de leitura
Infância sem proteção

A violência sexual contra crianças é uma das violações mais graves de direitos e exige uma resposta que vá além da indignação diante de cada novo caso. Em Carmo do Cajuru, a prisão em flagrante de um homem de 60 anos, suspeito de violência sexual contra uma menina de 10 anos, expõe a vulnerabilidade de quem deveria encontrar nos adultos cuidado e segurança. Em Divinópolis, os registros de estupro de vulnerável também acendem um alerta: entre janeiro e setembro de 2026, foram contabilizadas 20 ocorrências, número superior ao total anual de 2022, 2023 e 2025.

Segundo a Polícia Militar, a criança de Carmo do Cajuru relatou à família que o companheiro da avó teria tocado em seus seios sem consentimento. O caso está sob apuração, e a responsabilização criminal depende da investigação. Mas a gravidade do relato já evidencia a importância de acolher a criança e garantir que a denúncia seja tratada com seriedade, sem julgamentos ou tentativas de silenciamento.

O ambiente familiar, que deveria representar proteção, também pode esconder situações de violência. Em Divinópolis, três dos casos registrados neste ano tiveram relação com o convívio familiar. A proximidade com o suspeito pode dificultar a identificação e a denúncia, em especial quando existem vínculos de confiança. Por isso, nenhum laço familiar deve servir de justificativa para ignorar sinais de violência ou desacreditar o relato de uma criança.

Os números reforçam a necessidade de atenção. Divinópolis registrou 12 casos em 2022, 19 em 2023, 22 em 2024 e 16 em 2025. Nos primeiros nove meses de 2026, já são 20 ocorrências. Em Carmo do Cajuru, foram três registros neste ano, contra um durante todo o ano passado. Esses dados, isoladamente, não comprovam que a violência aumentou, pois a variação também pode estar relacionada às denúncias e à identificação dos casos. Ainda assim, não podem ser ignorados.

A proteção infantil não pode depender de estatísticas recordes para se tornar prioridade. Cada ocorrência exige investigação, acolhimento e acompanhamento. Também exige que os adultos compreendam a responsabilidade de ouvir as crianças sem culpabilizá-las, intimidá-las ou tratar seus relatos como exageros. Uma criança não deve carregar sozinha o peso de revelar uma violência, muito menos enfrentar a desconfiança daqueles a quem recorre em busca de ajuda.

A atuação das autoridades é indispensável, mas a prevenção também depende da sociedade. Suspeitas devem ser comunicadas aos órgãos competentes, como o Conselho Tutelar e as delegacias de polícia. O Disque 100 também recebe denúncias de violações de direitos humanos, enquanto situações de emergência podem ser comunicadas à Polícia Militar pelo 190. Denunciar é uma forma de interromper o silêncio e permitir que os casos sejam apurados.

Não basta afirmar que crianças têm direito à proteção. É preciso garantir que esse direito exista na prática, dentro e fora de casa. Quando uma criança relata violência, a prioridade deve ser acolher, proteger e investigar, nunca preservar aparências ou relações pessoais. Quantos registros ainda serão necessários para que a proteção da infância seja tratada como compromisso permanente? Crianças não podem esperar que a sociedade se sensibilize apenas diante da próxima ocorrência.

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