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Editorial

Quem somos “nós”

Quem somos “nós”

Confira o Editorial de hoje, dia 12 de dezembro

“Justiça nega pedido de liberdade de PM que matou jovem negro pelas costas em SP”; “Homem jogado da ponte por PM presta depoimento em delagacia de SP”; “Idosa agredida e PM’s afastados”; “PM que matou jovem negro com tiros pelas costas é preso”; “PM é flagrado agredindo homem durante abordagem no Ceará”. Notícias como essas se tornaram rotina no país, especialmente em São Paulo nos últimos meses.  A violência policial está cada dia mais intensa e presente na sociedade brasileira. A violência velada, a violência “necessária”, a violência exagerada, a violência pela violência, a violência instintiva e acobertada pela função, tudo é violência, e, ao que deixa transparecer, tudo é praticado sem maiores consequências. O que é noticiado pela imprensa, em alguns casos se transforma em procedimento administrativo ou processo judicial, mas não reflete a dimensão da violência que é efetiva e cotidianamente praticada. Com isso, o medo da população carente e submetida cresce. A imposição pelo silêncio que é feita, a promessa de reiteração das truculências, sem se falar do temor generalizado que a população sente pela polícia, reflete bem o sentimento das pessoas quando das abordagens e das intervenções policiais. 

A verdade é que se para alguns pode parecer que a brutalidade policial consiste em um fenômeno recente, para as pessoas que vivem nas periferias essas violências são há muito conhecidas; fazem parte do seu dia a dia. Para quem não sabe, as polícias são a representação do Estado na vida cotidiana das pessoas e o impacto de suas ações ajudam a construir (ou destruir) a confiança nas instituições legais, o respeito à lei e a disposição de cooperar com as autoridades. No Brasil, a Instituição Policial, identificada com um corpo militar armado, cujo objetivo é "combater o crime", vem promovendo a ideia de policiais como soldados ou guerreiros que têm que lutar contra um inimigo. A violência se torna um dos principais mecanismos para que a polícia exerça sua autoridade, pois há um inimigo que precisa ser combatido. Porém, há uma confusão entre a polícia e os cidadãos. Quem somos "nós" e quem seriam os "eles"? Contra quem e o quê as polícias estão lutando? Diante o contexto atual, onde tudo está desconexo, é possível dizer que tudo isso é graças à polarização política, sem dúvida, o sentimento hoje é medo. Afinal, qualquer um pode ser vítima desta violência. 

Além de violar direitos fundamentais, tais práticas perpetuam um ciclo de violências.  A brutalidade policial produz impactos profundos na sociedade e suas consequências possuem um efeito de retroalimentação. A verdade é que é preciso antes de mais definir quem o Estado está combatendo. E, separar a política da instituição, e dessa inversão de valores plantada em que a violência deve ser usada a todo e qualquer custo para combater este “mal”, que nem mesmo a própria sociedade sabe. É preciso antes de mais nada, entender quem “somos nós” e quem “são eles”. As marcas da violência policial são profundas e trazem impactos inimagináveis. É preciso abrir os olhos e dar os primeiros passos para mudar este cenário, pois a cooperação e observância dos cidadãos só será conquistada pela legitimidade da autoridade policial e não pelo medo do uso da força que extrapola.

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