O raso que sustenta

O Brasil foi tomado na última semana pelo vídeo de uma confusão em um voo que saía do aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, rumo à Confins, em Belo Horizonte. A confusão envolvendo a passageira Jeniffer Castro, que na gravação se recusa a ceder o lugar na janela para uma criança, gerou muito além de reações acaloradas na internet, mas a certeza do quanto a sociedade anda rasa, e a carência por heróis apenas aumenta a cada dia. Um simples “mal estar” envolvendo três mulheres – a passageira, mãe da criança e a nutricionista que gravou o vídeo – virou um verdadeiro alvoroço com direito à matéria no Fantástico, centenas de outras reportagens em vários veículos de comunicação, isso sem contar nos milhares de posts feitos depois da situação. A internet, claro, não demorou para assumir o seu papel de “tribunal” e determinar quem estava certo e quem estava errado. Mas, o fato é que o que está por trás deste grande “tribunal” é a mais pura e cristalina carência do povo brasileiro. Muito além de “entretenimento nas redes sociais”, o episódio escancarou mais uma vez o ponto caótico que o Brasil vive. O povo segue cada vez mais raso, cada vez mais perdido, e carente de heróis.
O episódio do assento mostra o quanto o país segue pobre. Pobre não apenas de heróis, mas de discussões. A sociedade segue cada vez mais rasa, mais limitada, mais restrita. Viver o ilusório tem bastado. O povo parece querer seguir cada um em seu mundo, em sua tela, em sua realidade, cada vez mais distante da vida real, da vida que grita, da vida que chama, e se contentando com pouco. E, é justamente de toda esta situação envolvendo uma confusão por um assento em um avião, que se tem as respostas do porquê o país está desse jeito. A sociedade vive apenas do espetáculo. Muito se faz e pouco se fala. O raso, o pouco estão contentando. Discussões fúteis têm “alimentado” o brasileiro, que prefere seguir alienado, alimentado pelo pouco, pelo raso. A sociedade do espetáculo ganha cada vez mais espaço, e com isso o real está cada vez mais longe, e com isso o sonho do desenvolvimento, das mudanças também. Afinal, o povo parece gostar de viver exatamente assim. No raso, no pouco, nas ruínas, no caos, no insuficiente.
Ver boa parte da população gastando energia com discussões como essa traz o sentimento de desespero. É desolador ver o quão pobre os brasileiros estão ficando. E, não são pobres de dinheiro não, mas de alma, de conteúdo. O vazio tem sido o suficiente para uma nação que anseia e cobra por mudanças. Mas, se distrai com a primeira situação mais fácil que vê pela frente. Do episódio envolvendo as três e a criança, dá para tirar várias conclusões. O povo anda se contentando com pouco, com o raso, com o vazio. E é angustiante assistir a tudo isso. Afinal, todos sabem onde este vazio dá: para lugar nenhum. Pior do que isso – sim, ainda tem pior – é constatar que este cenário não vai mudar. Pois, o povo quer apenas o ilusório, o espetáculo. A realidade, esta fica para depois, para bem depois.
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