"Feito de hipocrisia"

Se tem uma coisa que o Brasil precisa urgentemente é de amadurecer. A população precisa elevar o nível do debate, ter consciência de classe e, principalmente, entender seu lugar no mundo. Desde que a discussão acerca da Proposta de Emenda da Constituição (PEC) para reduzir a jornada de trabalho, o que não faltaram foram opiniões. O que mais chama a atenção é ver que a maioria delas foi baseada em “achismo”. A mais pura e cristalina prova de que o país precisa com urgência pensar mais antes de falar. O povo definitivamente não está preparado para esse tipo de discussão tão séria e necessária em tempos de mudanças de comportamento.
Enquanto alguns países caminham rumo à evolução, do lado de cá a única coisa que se tem é o retrocesso. Mais nada. E, afinal de contas, como acreditar em uma nação que é feita de hipocrisia? Enquanto a discussão sobre o tema é rodeada por achismos, o ex-presidente Michel Temer (MDB) afirmou na segunda-feira que o Brasil não está preparado para uma jornada de trabalho 4x3, pois, em sua visão, as pessoas procurariam outro trabalho para ocupar os três dias de folga da escala.
Peculiar a declaração, afinal, para aqueles que têm a memória curta, é válido relembrar que no governo de Temer foi sancionada a Reforma Trabalhista. Mudança essa que gera críticas ferrenhas até hoje de especialistas no assunto. Mais uma prova de que o Brasil é feito de hipocrisia, e não dá para confiar.
Temer pode até estar certo. De fato, o povo brasileiro pode não estar preparado para viver esta mudança, e isso “facilitaria” para que os trabalhadores buscassem outros empregos, mesmo a proposta sendo clara que o trabalhador não terá prejuízo em seu salário, caso a jornada seja implementada. Porém, há apenas um significativo ponto nisso tudo. Temer se esquece que de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o salário mínimo deveria ser de R$ 6.723,41. Uma vez que o valor atual corresponde a apenas um quinto do necessário, a pergunta é: como não buscar uma renda, quando o brasileiro apenas sobrevive a este país amador e imaturo? Como não buscar brechas, quando as regalias são para poucos, e os próprios governantes pouco fazem para mudar este cenário? Como não buscar brechas, quando apenas um lado está sendo favorecido neste sistema que castiga dia a dia o brasileiro?
Questionar é mais do que preciso. Afinal, são em assuntos como esses que se vê o quanto a população ainda gosta do discurso vitimista, e precisa amadurecer para evoluir um passo sequer. É preciso abrir os olhos e estar disposto a enxergar o que é ilusório e o que é real. O que de fato funciona, e o que fica apenas no imaginário. O Brasil pode não estar preparado para viver a escala 4x3 como ela é na essência. O país precisa passar por transformações maiores e urgentes do que a escala 4x3. Mas também é fato que o Brasil urge pelo fim de sua construção baseada na hipocrisia. Pois, esse “feito de hipocrisia” está beneficiando apenas um lado, e o povo só precisa enxergar.
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