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Editorial

Urna não é um botão de seguir

Por Redação Jornal Agora · Redação· 3 min de leitura
Urna não é um botão de seguir

As eleições entraram definitivamente na era das redes sociais. O candidato que não aparece, não conversa e não consegue ocupar o espaço digital corre o risco de desaparecer do campo de visão do eleitor. Seguidores viraram patrimônio político, vídeos curtos ganharam força, dancinhas alcançam milhões de pessoas e uma publicação pode produzir, em poucas horas, uma repercussão que antes exigiria dias de campanha.

Mas existe um perigo nessa transformação: confundir audiência com aprovação, engajamento com confiança e seguidores com votos.

A rede social pode apresentar um candidato. Pode aproximá-lo do eleitor. Pode ampliar uma proposta, mostrar sua rotina e criar identificação. Mas não deveria ser ela a responsável por decidir quem governará uma cidade, um Estado ou o país.

O risco começa quando o candidato passa a ser avaliado pelo número de visualizações, pela capacidade de viralizar ou pela habilidade diante de uma câmera. Uma dancinha pode render milhões de acessos. Um vídeo engraçado pode gerar milhares de comentários. Um discurso de poucos segundos pode conquistar aplausos. Mas governar exige muito mais do que saber produzir conteúdo.

É preciso perguntar: quais são suas propostas? Quem está ao seu lado? Qual é sua trajetória? O que pretende fazer quando deixar o palanque e assumir uma cadeira? Tem preparo? Tem equilíbrio? Tem capacidade de diálogo? Conhece os problemas que promete resolver?

Porque a política não pode ser transformada em um grande concurso de popularidade digital. E há ainda um problema mais grave: a desinformação.

Nas redes, uma mentira pode viajar mais rápido do que uma informação verdadeira. Um recorte fora de contexto, uma montagem, uma manchete falsa ou uma acusação sem prova podem atingir milhares de eleitores antes mesmo que alguém consiga verificar o fato.

E quanto mais apertada fica uma disputa, maior pode ser a tentação de transformar a internet em campo de batalha.

No segundo turno, esse fenômeno tende a ganhar ainda mais força. Com apenas dois nomes na disputa, desaparecem muitas das alternativas e aumenta a pressão para destruir a imagem do adversário. Começam os ataques mais duros, as acusações, os vídeos recortados, as provocações e, muitas vezes, a tentativa de transformar o medo ou a rejeição em voto.

Quando faltam argumentos, sobram ataques. E esse talvez seja um dos sinais mais importantes para o eleitor observar.

Uma campanha que apresenta propostas pode ser confrontada por outra campanha com propostas melhores. Uma ideia pode ser debatida. Um projeto pode ser questionado. Mas quando a estratégia passa a ser exclusivamente atacar, desqualificar e espalhar suspeitas, é preciso acender o sinal de alerta.

A tecnologia mudou a maneira de fazer política. A responsabilidade de escolher, porém, continua sendo humana.

O eleitor não deveria entregar seu voto ao candidato que melhor dança, ao que aparece mais vezes no TikTok ou ao que possui o maior exército digital. Nem todo viral é verdade. Nem todo popular está preparado. Nem todo seguidor se transforma em eleitor.

A rede social pode ajudar a revelar quem são os candidatos. Mas cabe ao eleitor decidir quem eles realmente são. No fim, a urna não mede curtidas. Mede escolhas.


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