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Editorial

IA a serviço da mentira

Por Redação Jornal Agora · Redação· 2 min de leitura
IA a serviço da mentira

A mentira sempre encontrou espaço na política, mas a tecnologia mudou a dimensão do problema. Nas eleições deste ano, vídeos falsos e conteúdos produzidos por inteligência artificial (IA) ameaçam a capacidade do eleitor de distinguir fatos de invenções. O primeiro turno já foi marcado por esse cenário e, agora, no segundo, o problema persiste. Publicações de campanhas são alvo de decisões da Justiça Eleitoral, que determina a retirada de conteúdos irregulares. Mas até quando será necessário correr atrás da mentira depois que ela já começou a circular?

O Guia Internet, Democracia e Eleições, publicado pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), alerta para essa transformação. Segundo o documento, os vídeos se tornaram um dos principais meios de disseminação da desinformação. Com o avanço da inteligência artificial, produzir cenas e declarações convincentes ficou mais acessível. A aparência de realidade, entretanto, não transforma uma invenção em fato.

Um vídeo pode atribuir a um candidato uma fala que nunca pronunciou ou simular uma situação que não aconteceu. Compartilhado em grupos e redes sociais, o conteúdo pode alcançar milhares de pessoas antes que sua autenticidade seja questionada. E, quando a correção chega, quem garante que terá o mesmo alcance da mentira? Quem recebeu o material falso também receberá o desmentido?

As decisões do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) são importantes para conter abusos e proteger o processo eleitoral. Contudo, retirar uma publicação não significa eliminar seus efeitos. Um vídeo pode continuar circulando em outros grupos e permanecer na memória de quem acreditou nele. Por isso, não basta agir depois da divulgação. É necessário cobrar prevenção, respostas rápidas e transparência das plataformas digitais, além da responsabilização de quem produz e dissemina deliberadamente conteúdos enganosos.

As campanhas também precisam compreender que a disputa por votos não justifica a fabricação de fatos nem a manipulação da imagem de adversários. As plataformas, por sua vez, não podem ignorar o impacto dos sistemas que distribuem conteúdos em larga escala. Se ocupam lugar central na circulação de informações, devem assumir responsabilidades compatíveis com seu alcance.

O problema vai além dos vídeos falsos. A desinformação pode alimentar a desconfiança até mesmo sobre informações verdadeiras. Quando convicções políticas se sobrepõem à verificação dos fatos, o debate público perde qualidade e o eleitor tende a acreditar apenas no que confirma suas próprias ideias.

O cidadão deve verificar a origem dos conteúdos antes de compartilhá-los, mas não pode carregar sozinho essa responsabilidade. O combate exige compromisso das campanhas, atuação da Justiça Eleitoral e medidas efetivas das plataformas.

Uma eleição não se torna legítima apenas porque a votação acontece dentro das regras. O eleitor precisa escolher com base em informações confiáveis, e não em cenas fabricadas para enganá-lo. Se a tecnologia torna a mentira cada vez mais convincente, por que as medidas para combatê-la não avançam na mesma velocidade? Afinal, de que vale o direito de escolher representantes quando a realidade apresentada ao eleitor pode ter sido inventada?


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