Nova idade da política

A política brasileira está mudando de perfil. As redes sociais abriram espaço para novas formas de comunicação, novos nomes e novas gerações. Isso não significa que os jovens tenham tomado o poder, mas mostra que a política tradicional já não é o único caminho para chegar ao eleitor.
As eleições de 2026 deixaram um exemplo dessa renovação na Câmara dos Deputados. Dos 513 eleitos, 183 exercerão o primeiro mandato na Casa, o equivalente a 35,67% dos parlamentares. Renovação, entretanto, não é sinônimo de juventude. E é justamente aí que começa a discussão.
Durante décadas, a política foi construída pela presença em partidos, movimentos, entidades, administrações públicas e eleições sucessivas. Era necessário construir relações, conhecer comunidades e acumular experiência. Hoje, esse caminho convive com outro: primeiro vem a exposição, depois a popularidade e, em alguns casos, a candidatura.
As redes sociais mudaram a velocidade desse processo. Um jovem pode construir uma identidade política, formar uma comunidade digital e alcançar milhares de pessoas sem jamais ter ocupado um cargo público. A comunicação direta com o eleitor é uma conquista democrática. O problema começa quando visibilidade passa a ser confundida com preparo.
Ser jovem não significa ser despreparado. Da mesma forma, ter uma longa trajetória política não garante competência. Há jovens preparados e capazes de exercer bons mandatos, assim como existem políticos experientes que não conseguem compreender as transformações da sociedade.
Por isso, o debate não deveria ser sobre idade. Deveria ser sobre maturidade para tomar decisões que afetam a vida de milhares ou milhões de pessoas.
Governar não é produzir um vídeo de poucos segundos. Legislar não é fazer uma postagem que viraliza. Administrar exige conhecimento sobre orçamento, legislação, planejamento, saúde, educação, segurança, infraestrutura e responsabilidade fiscal.
Um parlamentar pode ter enorme capacidade de comunicação e ainda não ter desenvolvido a serenidade necessária para negociar. Pode mobilizar milhares de pessoas e encontrar dificuldades para construir consensos. Pode ser excelente diante de uma câmera e ter pouca experiência diante de uma mesa de negociação.
Esse é um dos desafios da nova política: a velocidade com que um eleitor pode conhecer e escolher um candidato é muito maior do que a necessária para compreender os problemas que esse candidato terá de enfrentar.
As redes também criaram uma relação diferente entre popularidade e política. Seguidores ampliam o alcance de uma mensagem, mas não substituem conhecimento. Viralização pode levar uma proposta a milhões de pessoas, mas não demonstra que ela seja viável. Influência pode ajudar a vencer uma eleição, mas não garante capacidade para exercer um mandato.
A política precisa de novas gerações, novas ideias e novas linguagens. Uma democracia que não permite a entrada de novos atores corre o risco de repetir estruturas que já não respondem aos problemas do presente.
Mas renovação também exige responsabilidade. Quanto maior a visibilidade de um candidato, maior deveria ser a cobrança sobre o que existe por trás dela. Quais são suas propostas? Conhece a estrutura que pretende administrar? Sabe negociar? Conhece os limites legais e orçamentários de suas promessas?
A resposta não está no número de seguidores ou na capacidade de produzir um conteúdo que viralize. Está na preparação para tomar decisões, enfrentar conflitos, negociar interesses e responder pelas consequências de cada escolha.
A política brasileira pode, sim, ficar mais jovem. E isso pode ser positivo. Mas renovação não deve significar apenas troca de rostos. A urna pode entregar rapidamente um mandato a alguém. O mandato, porém, revelará se aquela pessoa estava realmente preparada para recebê-lo.
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