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Editorial

Paciência tem limite 

Paciência tem limite 

Os protestos do último domingo deixaram um recado ensurdecedor para quem insiste em fingir que não ouve a voz das ruas. De São Paulo a Salvador, de Brasília a Divinópolis, milhares de brasileiros ocuparam praças e avenidas para dizer o óbvio: não aceitamos ser governados por uma casta de intocáveis. A pergunta que se impõe agora é simples — terão os parlamentares a cara de pau de seguir adiante com a “PEC da Blindagem”?

O texto aprovado na Câmara não é apenas controverso, é uma afronta. Em pleno 2025, com décadas de democracia nas costas, os deputados decidiram ressuscitar um modelo sepultado há mais de 20 anos, que devolve às Casas Legislativas o poder de decidir se seus próprios membros podem ou não ser investigados. 

Se fosse apenas uma disputa jurídica, seria grave. Mas a dimensão política do gesto é ainda mais corrosiva. O Congresso escolheu colocar sua energia não em debater o desemprego, a violência urbana ou a precariedade dos serviços públicos, mas em legislar em causa própria. 

A cena de Divinópolis, onde a Praça do Santuário foi tomada por manifestantes, é emblemática. No mesmo chão onde ecoam festas e manifestações culturais, cidadãos comuns, artistas, movimentos sociais e lideranças políticas se uniram para expor o óbvio: a democracia não sobrevive quando uns poucos se colocam acima da lei. O contraste é gritante — de um lado, o povo clamando por justiça e transparência; do outro, parlamentares acelerando uma votação com argumento de “urgência”, como se a sobrevivência do país dependesse disso.

Agora, a situação está nas mãos do Senado. Os senadores terão diante de si não apenas um texto de emenda constitucional, mas um dilema moral. Atendem ao chamado da sociedade e barram o retrocesso, ou se alinham à lógica corporativista que transforma mandatos em escudos contra a Justiça? Não se trata de um detalhe técnico: aprovar essa PEC é oficializar a ideia de que existem cidadãos de primeira e de segunda categoria, que alguns são julgados e outros julgam a si mesmos.

O especialista em Direito Público Jarbas Lacerda resumiu bem: a proposta cria uma “anomalia jurídica”, uma casta de privilegiados em flagrante desrespeito ao princípio da igualdade. E pior, prevê votações secretas para decidir sobre prisão de parlamentares, como se o eleitor não tivesse o direito de saber como seu representante vota. É a negação do básico: publicidade e responsabilidade no exercício do poder.

Alguns dirão que a pressão popular é barulho passageiro, que a indignação vai se dissolver até o dia da votação no Senado. Mas a história precisa mostrar o contrário. Os deputados podem até ter a ousadia de aprovar aberrações como essa. Mas não se iludam: a paciência do povo tem limite. E se a cara de pau deles não tem, a indignação popular pode definir até onde conseguem ir.  

Ainda há tempo de corrigir o erro — seja pelos próprios deputados que criaram esse absurdo voltando atrás, seja pelo Senado, que pode barrar a “blindagem da vergonha”.

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