Câmara é palco de debate sobre crescimento da população de rua

Elian Ozéias
A Câmara de Divinópolis foi palco de uma reunião urgente na manhã desta quinta-feira, 4, que colocou em debate um problema crescente e visível pelas ruas do município: o aumento da população em situação de rua. O encontro contou com a presença de vereadores, representantes do Poder Executivo, secretarias municipais e entidades ligadas à assistência social e acolhimento terapêutico.
O objetivo foi traçar estratégias conjuntas diante da sobrecarga dos serviços públicos municipais e da percepção de que Divinópolis tem recebido, de forma desorganizada, pessoas em vulnerabilidade oriundas de outras cidades da região.
Busca por soluções
Quem passou recentemente pelas praças, calçadas ou áreas centrais de Divinópolis já notou o aumento expressivo de pessoas vivendo nas ruas. Essa percepção, agora respaldada por relatos de agentes públicos, acendeu o alerta no Legislativo Municipal.
O presidente da Comissão de Justiça, Anderson da Academia, liderou os trabalhos da reunião.
— Hoje nós acolhemos essa demanda, ouvindo a comunidade, o Executivo, vendo o que pode ser feito. Houve um aumento significativo da população de rua. Precisamos entender de onde vêm essas pessoas e como podemos, junto da assistência social, agir para melhorar essa situação — disse o parlamentar.
— Estamos vendo moradores vindo de fora, e precisamos ajustar essa realidade com políticas mais eficazes — completou.
A situação é complexa. A secretária municipal de Desenvolvimento Social, Juliana Coelho, fez questão de frisar que há um novo perfil predominante entre os moradores de rua: o da dependência química.
— A população em situação de rua não é mais apenas aquela que está na calçada por falta de moradia ou pobreza extrema. Hoje, grande parte é composta por usuários de álcool e outras drogas. E isso muda a natureza do atendimento, que agora precisa também incluir saúde mental e ações terapêuticas especializadas — pontuou Juliana.
Ela também destacou a pressão sofrida pela cidade.
— Outros municípios têm encaminhado essas pessoas para Divinópolis, muitas vezes sem nenhum aviso ou articulação. Estamos arcando com os custos de serviços que deveriam ser responsabilidade compartilhada —frisou.
Projeto Diogo
Um dos poucos espaços de acolhimento terapêutico da cidade, o Projeto Diogo (antigo Filho Pródigo), localizado na região do Córrego do Paiol, também foi representado na reunião.
O coordenador Edilson Rosa destacou os desafios enfrentados pela instituição, que hoje já acolheu 20 pessoas.
— Um dos principais entraves é a burocracia para internação. Muitas vezes, as pessoas não têm documentos, não têm cadastro em posto de saúde, e como vêm de outras cidades, não conseguimos encaixá-las nos serviços. É um recomeço total, mas sem apoio financeiro direto — relatou Edilson.
O projeto não conta com repasses fixos da Prefeitura e depende de doações voluntárias.
— Tem acolhido que vem sem nada, sem família, e temos que garantir tudo: alimentação, banho, roupa. Estamos no limite, e sem apoio, fica cada vez mais difícil — concluiu.
Ações nas ruas e tensão
Na véspera da reunião, a Prefeitura de Divinópolis realizou uma ação integrada na Praça do Santuário, envolvendo as secretarias de Desenvolvimento Social, Meio Ambiente, Governo e a Polícia Militar.
A operação teve caráter preventivo e orientativo, buscando garantir direitos da população vulnerável, proteger os animais que vivem com eles e desobstruir o espaço público.
— Nossa missão é garantir o direito de ir e vir. A remoção de objetos não é punitiva, mas necessária para a convivência urbana — explicou Erson Ribeiro, gerente de ações comunitárias.
Um morador em situação de rua foi preso nesta terça-feira, 2, com 25 pedras de crack. Segundo o cabo da PM Iury Fabian, a ação teve apoio de frequentadores da praça e da própria Igreja que fica ao lado.
— Estavam causando transtornos. Nosso papel foi garantir segurança para que a Prefeitura pudesse atuar — disse.
O vereador Matheus Dias (Avante), defendeu uma ação mais firme e coordenada.
— Temos que dar dignidade de verdade, e isso não é um colchão na calçada. É encaminhamento, é tratamento, é acolhimento. Precisamos definir quem realmente precisa de ajuda e quem está usando a situação para cometer crimes —argumentou.
Repercussão regional
As declarações de Matheus Dias, de que cidades vizinhas estariam “exportando” suas populações de rua para Divinópolis, geraram polêmica.
O prefeito de Pedra do Indaiá, Mateus Santos (Republicanos), rebateu com veemência:
— Isso é uma mentira. Pedra do Indaiá nunca enviou moradores de rua para Divinópolis. Nós seguimos uma política de migração comum a qualquer cidade. Recentemente, apenas ajudamos um senhor a retornar para Três Corações — esclareceu.
Mateus ainda exigiu retratação pública e criticou a fala do vereador.
— Antes de falar besteira na tribuna, procure saber a verdade — completou.
Pouco tempo depois, o vereador Matheus Dias, junto com o prefeito de Divinópolis, Gleidson Azevedo (Novo) postou um vídeo nas redes sociais.
— Vamos ajudar os moradores da nossa cidade. Aqueles que vieram de fora, tamo junto, não, beleza? — declarou Gleidson no vídeo, se referindo à suposta prática de municípios como Nova Serrana, Carmo do Cajuru e Pedra do Indaiá.
Próximos passos
Em meio às tensões políticas e à crescente complexidade social do tema, Divinópolis se vê diante de um grande desafio: equilibrar o cuidado com a população em situação de rua com a sustentabilidade dos seus próprios recursos.
A secretária Juliana Coelho fez um apelo por mais responsabilidade compartilhada.
— O município não tem mais como arcar sozinho. Estamos cobrando mais apoio do Estado e do governo federal, além de articulação com os municípios do entorno. Precisamos priorizar os nossos moradores, sim, mas também defender a dignidade humana como princípio inegociável — declarou.
Com uma população de rua que cresce em número e complexidade, Divinópolis inicia, ainda que com tropeços, uma discussão necessária: como acolher sem colapsar, como ajudar sem fomentar dependência, e como proteger o espaço público sem ferir direitos fundamentais.
O debate, conforme os envolvidos, exige união entre governo, sociedade civil, e principalmente, uma visão mais humana e menos fragmentada do problema.
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