Casos de injúria racial e racismo aumentam em Minas e acende alerta em Divinópolis

Elian Ozéias
A violência racial segue presente e atuante e sem nenhum sinal de melhora. Pelo menos em Minas Gerais. É que mostram dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp). Conforme o levantamento, os casos de injúria e racismo cresceram de forma alarmante em 2025, especialmente no primeiro quadrimestre do ano, entre janeiro e abril, quando foram registrados 57 casos no estado — contra 32 no mesmo período de 2024. O aumento equivale a 78%, com destaque para o crescimento de 100% nas ocorrências de racismo e 73% nos registros de injúria racial.
Divinópolis, no Centro-Oeste mineiro, reflete esse cenário. Embora o número absoluto local seja menor, os episódios registrados revelam um padrão preocupante: a maioria das vítimas são adolescentes, e os ambientes escolares têm se tornado palco frequente para esse tipo de violência.
Divinópolis
Entre janeiro e abril de 2025, foram registrados quatro casos de injúria racial e por motivação discriminatória em Divinópolis. Todos os episódios envolveram ofensas verbais e ocorreram em ambientes privados, como residências, comércios e instituições de ensino. Em pelo menos três casos, as vítimas foram alunas de escolas públicas e privadas, o que coloca o sistema educacional em alerta.
Escolas: epicentro de casos recentes
Três episódios recentes em instituições de ensino chamam atenção pela gravidade e pela exposição de adolescentes a situações de humilhação.
Ofendida por colega
Uma adolescente foi vítima de injúria racial na Escola Senai Anielo Greco, no bairro Esplanada, no dia 27 de março deste ano. Segundo a mãe, a jovem foi alvo de ofensas racistas enquanto aguardava na fila para entrar na escola. A direção afirmou que apura o caso, e um Boletim de Ocorrência foi registrado.
Comentário racista
Na Escola Estadual Armando Nogueira Soares, uma aluna de 17 anos relatou que um professor de artes, de 63 anos, sugeriu que ela não interpretasse a personagem Chiquinha (de Chaves) por ter "cabelo enrolado". O caso foi registrado como injúria racial, no dia 30 de abril, e a Secretaria de Educação afirmou que tomou medidas.
Chamada de ‘macaca’
Já na Escola Estadual São Francisco de Paula, no Icaraí, uma funcionária teria chamado uma estudante de "macaca" no dia 18 de fevereiro, na frente de outros alunos. A PM registrou o caso como injúria racial, e a família cobra responsabilização.
Dados
De acordo com o levantamento da Sejusp, os casos registrados em Divinópolis, entre janeiro e abril apresentam o seguinte panorama:
- Total de casos: 4
- Injúria racial: 1 caso
- Injúria (com motivação discriminatória): 3 casos
Locais mais frequentes:
- Residências ou estabelecimentos escolares: 3 casos
- Comércio: 1 caso
Meio utilizado:
Fala (verbal): 100% das ocorrências
Além disso, os registros indicam a ausência de casos formais de racismo estrutural, como impedimento de acesso a serviços ou exclusão institucional. Ainda assim, especialistas alertam para os impactos emocionais dessas violências — especialmente quando naturalizadas ou ignoradas pela sociedade.
‘Racismo não é exceção, é regra social’
Para a psicóloga Ana Sarah Alves, pesquisadora da relação entre racismo e saúde mental, os dados da Sejusp confirmam uma realidade conhecida há tempos pelas comunidades negras no Brasil.
— O racismo nunca deixou de existir. O que temos hoje é mais coragem para romper o silêncio, mais visibilidade e mais consciência sobre o que é ou não aceitável — afirma.
Ela explica que, juridicamente, a injúria racial se refere à ofensa pessoal contra alguém, usando sua raça, cor ou origem como alvo — geralmente por meio de xingamentos. Já o racismo atinge um grupo coletivo, podendo se manifestar por ações institucionais que negam acesso, oportunidades ou direitos a pessoas negras.
Injúria racial: Ofensa individual (xingamentos, humilhações).
Racismo: Discriminação coletiva (negar emprego, acesso a serviços).
Desde 2023, a legislação passou a equiparar os dois crimes em termos de gravidade, tornando ambos inafiançáveis e imprescritíveis.
Ainda assim, a profissional alerta para a resistência social em reconhecer o racismo como um problema estrutural.
— Muita gente só acredita no racismo se presenciar um caso. Mas os dados e as estatísticas são claros. O fato de você não ver não significa que não exista. E um posicionamento neutro diante disso é, na prática, conivente — argumenta.
Sofrimento invisível
Além do impacto social, o racismo tem efeitos diretos na saúde mental das vítimas. Ana Sarah afirma que o sofrimento é real e documentado cientificamente, mesmo quando banalizado ou deslegitimado:
— O que muita gente chama de mimimi ou vitimismo causa quadros graves de ansiedade, depressão, estresse pós-traumático e insegurança constante. Isso afeta autoestima, relações e até mesmo as expectativas de futuro — frisa.
A psicóloga defende a inclusão do tema no debate público como questão de saúde pública e justiça social.
Impactos na saúde mental
Alves alerta que o racismo gera ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático em vítimas.
— O que muita gente chama de “mimimi” causa sofrimento real. Afeta autoestima, relações e expectativas de futuro. Precisamos de políticas públicas sérias para combater isso — diz.
A Secretaria de Educação afirma que promove ações contra o racismo nas escolas, como rodas de conversa e palestras. Mas especialistas cobram medidas mais efetivas, como:
- Formação antirracista para professores;
- Canais de denúncia eficientes;
- Acompanhamento psicológico para vítimas.
O que dizem as autoridades?
- Sejusp: Monitora os casos e reforça campanhas de denúncia.
- Secretaria de Educação (SEE/MG): Afirma que "repudia atos de racismo" e que escolas estão orientadas a agir.
- Polícia Civil: Investiga os casos recentes e pode indiciar agressores.
Mais denúncias ou mais racismo?
Diante do crescimento dos registros, surge uma pergunta recorrente: os números aumentaram porque há mais racismo ou porque há mais denúncias? A psicóloga responde com outra provocação.
— Talvez a pergunta mais eficaz seja: por que ainda precisamos combater o racismo em 2025? O que sustenta essa estrutura e como vamos enfrentá-la de verdade? — questiona.
Opinião
A resposta, como mostram os dados, está na urgência de reconhecer o problema, ouvir as vítimas, punir os agressores e construir, coletivamente, um futuro em que crianças e adolescentes não precisam mais aprender a resistir — apenas a viver com dignidade.
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