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Polícia

Dados de crimes contra a vida, de agentes de segurança e de violência doméstica impõem desafios para a Segurança Pública

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, traz, na visão do Ministério Público de Minas, um raio-x da situação da criminalidade em geral 

Por Jornal Agora· 7 min de leitura
Dados de crimes contra a vida, de agentes de segurança e de violência doméstica impõem desafios para a Segurança Pública

A divulgação dos dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, feita pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública na quinta-feira, 23, traz, na visão do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), um raio-x da situação da criminalidade no Brasil. Embora, segundo o órgão, as estatísticas estaduais já sejam acompanhadas diariamente, o estudo permite estabelecer um comparativo com as demais unidades da federação e com a média nacional.

Enquanto as Mortes Violentas Intencionais (MVI) — que englobam cinco crimes distintos — apresentaram queda de 8,2% no país e de 14,2% em Minas Gerais, o feminicídio cresceu tanto em âmbito nacional quanto estadual. Em 2025, o estado registrou 177 feminicídios consumados, um aumento de 4,4% em relação ao ano anterior. Minas concentra 11,3% de todas as vítimas de feminicídio do país, ocupando o segundo lugar nacional em números absolutos. Por outro lado, foram contabilizados 207 feminicídios tentados, representando uma redução de 16,8% em relação a 2024.

O estelionato já se consolidou como o principal crime patrimonial, mantendo a tendência de alta observada nos últimos anos. De 2018 a 2025, esse tipo de crime cresceu 429,8% no Brasil, impulsionado pela migração da criminalidade para os ambientes digitais.

Entre diversos outros dados, o levantamento aponta ainda o aumento da letalidade policial, o crescimento do tráfico de drogas, o aumento do número de pessoas desaparecidas e a necessidade de medidas que freiem o crescente número de suicídios entre agentes das forças de segurança.

Feminicídio e tentativa 

Para a coordenadora do Centro de Apoio Operacional às Promotorias de Justiça de Combate à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (CAOVD), Denise Guerzoni, o contraste entre os indicadores de feminicídio consumado e tentado acende um alerta para o aumento da letalidade da violência contra a mulher — com mais agressões chegando ao resultado morte — e para uma possível subnotificação dos feminicídios tentados no estado.

Segundo Denise, além da maior letalidade da violência de gênero, a redução dos casos tentados pode estar relacionada à dificuldade de identificação desse tipo de crime ainda no primeiro atendimento.

— É preciso que, desde o registro da ocorrência, haja sensibilidade para identificar corretamente esses casos, garantindo a preservação das provas, a investigação adequada e o acolhimento da vítima sobrevivente — afirma. 

O coordenador da Coordenadoria Estadual das Promotorias de Justiça do Tribunal do Júri (Cojur), vinculada ao Centro de Apoio Operacional de Defesa da Segurança Pública (CAO-SEP), Cláudio Barros, alerta que o cenário em relação aos feminicídios é preocupante tanto em âmbito nacional quanto estadual, exigindo atenção contínua das instituições de segurança e Justiça.

— Os números apontam para a necessidade de efetiva divulgação, implementação e fiscalização das medidas protetivas há muito disponibilizadas na denominada Lei Maria da Penha. Neste ponto, o esforço há de ser rigorosamente articulado. Se, de um lado, incumbe ao Poder Público o cumprimento de seu dever, à sociedade civil, lado outro, impõe-se o rompimento da cultura de omissão, denunciando situações de violência, acolhendo e apoiando as vítimas, de modo a rejeitar qualquer forma de naturalização da violência contra a mulher. O enfrentamento ao feminicídio exige atuação integrada, prevenção permanente, fortalecimento das redes de proteção e resposta estatal rápida e eficaz — sintetiza. 

Outras formas de violência 

O levantamento também mostra crescimento de outras formas de violência contra a mulher. A psicológica foi a modalidade que mais aumentou em Minas Gerais, com alta de 32,5% — quase o dobro do índice nacional (16,9%) —, totalizando 3.994 registros. O estado contabilizou ainda 85.993 vítimas de ameaça, o segundo maior número do país, e 6.533 casos de perseguição (stalking), um crescimento de 22,2% em relação ao ano anterior.

Denise Guerzoni avalia que o aumento da violência psicológica também reflete maior conscientização das vítimas e melhor qualificação dos profissionais responsáveis pelos registros. 

— Hoje se reconhece que a violência começa muito antes da agressão física. Humilhações, isolamento e ridicularização também são formas de violência e precisam ser identificadas precocemente, porque a prevenção pode impedir a escalada para o feminicídio— observa.

Outro dado que chama atenção é o aumento de 9,9% nos descumprimentos de medidas protetivas de urgência. Em 2025, Minas Gerais registrou 12.403 ocorrências desse tipo, o quarto maior número absoluto do país.

A promotora ressalta que, para fortalecer a proteção das mulheres, o MPMG tem adotado como rotina a aplicação do Formulário Nacional de Avaliação de Risco (Fonar), que permite identificar fatores que aumentam a vulnerabilidade da vítima e orientar medidas de proteção mais adequadas. A instituição vem atuando, segundo ela, também para ampliar o uso do georreferenciamento de vítimas e do monitoramento de agressores. 

Além do fortalecimento da rede de proteção, a promotora destaca o papel da educação na prevenção da violência contra a mulher. Nesse sentido, conforme Guerzoni,o projeto “Alerta Lilás Educação” incentiva a implementação, nas escolas públicas e privadas, dos conteúdos sobre a Lei Maria da Penha e os direitos humanos previstos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e na própria Lei Maria da Penha. 

Homicídios

Minas Gerais apresentou resultado positivo nos homicídios. O número de vítimas caiu de 3.124, em 2024, para 2.698, em 2025, uma redução de 14,2%, fazendo a taxa recuar de 14,7 para 12,6 homicídios por 100 mil habitantes.

A redução merece reconhecimento, mas não pode ser confundida com a superação do problema, conforme o MP. Segundo o órgão, embora haja quem comemore a antecipação das metas nacionais para 2027, os números ainda estão muito distantes do aceitável. 

— A comparação com a Índia é especialmente reveladora: enquanto o país asiático possui cerca de 1,47 bilhão de habitantes, quase sete vezes a população brasileira (214 milhões), registra taxa aproximada de 3 homicídios por 100 mil habitantes. O Brasil, mesmo após a recente redução, ainda apresenta 19,1 mortes por 100 mil habitantes, índice mais de três vezes superior à média mundial, situada entre 5 e 6 homicídios por 100 mil habitantes — afirma Cláudio Barros.

Desaparecimento em alta

Em 2025, foram registrados 84.269 desaparecimentos no Brasil, aumento de 3,6% em relação aos 81.040 casos de 2024, correspondendo a uma taxa de 39,5 desaparecimentos por 100 mil habitantes. Em Minas Gerais, o crescimento foi ainda mais expressivo: 9.123 registros, contra 6.970 no ano anterior, representando um aumento de 30,5%.

— Esse é um indicador que merece atenção. A estatística engloba situações muito distintas, como desaparecimentos voluntários, conflitos familiares, transtornos mentais, violência doméstica, dependência química, exploração sexual, tráfico de pessoas, acidentes e homicídios cujos corpos jamais foram encontrados— pontua o promotor. 

Tráfico de drogas

Enquanto as ocorrências envolvendo o tráfico de drogas cresceram 18,5% no país de 2024 para 2025, em Minas Gerais o crescimento foi de 41,7% no mesmo período. De acordo com o coordenador da Coordenadoria Estadual Criminal, de Controle Externo da Atividade Policial e da Auditoria Militar (Coecrim), vinculada ao Centro de Apoio Operacional de Defesa da Segurança Pública (CAO-SEP), Rafael Henrique Martins Fernandes, Minas Gerais tem a maior malha rodoviária do país e, por isso, pode estar sendo utilizado como uma rota estratégica para o tráfico.

— Não é possível fazer um diagnóstico preciso, mas a posição geográfica de Minas Gerais contribui para o escoamento dos entorpecentes, além, claro, do avanço das organizações criminosas. É um estado que detém a maior malha rodoviária do Brasil e acaba sendo rota de passagem de drogas produzidas em países vizinhos, mas que também tem entrepostos para a distribuição dessa droga ao mercado consumidor local. Isso potencializa o aumento desse tipo de crime no estado — explicou.

Estelionato

Em Minas, o crime de estelionato apresentou um crescimento de 3,3% de 2024 para 2025. Quando ocorrido por meio digital, o aumento no mesmo período foi de 10,5%. Para o coordenador da Coecrim, que também é membro da Global Anti-Scam Alliance e participa de eventos nacionais e internacionais que debatem o combate às fraudes digitais, este é um tipo de crime que se adaptou com a chegada das novas tecnologias e transformou-se na nova pandemia de casos.

— Estelionato é, definitivamente, o crime da moda. É um delito que ocorre muitas vezes tendo por trás uma organização criminosa, até de caráter internacional. O estelionato talvez seja o crime que melhor pegou carona nas novas tecnologias que mudaram as nossas vidas ao longo dos anos. Hoje todo mundo tem um smartphone na mão e recebe e-mails, SMS e links maliciosos. Temos vazamentos de dados, enfim, são várias brechas para os criminosos — disse.

Suicídios de policiais

Na contramão dos dados nacionais, como o Agora já mostrou, Minas Gerais apresentou ainda um aumento no número de suicídios entre policiais. Para o promotor Rafael Henrique Martins Fernandes, os números alertam para a necessidade de um olhar atento à saúde mental dos policiais civis e militares no estado.

— Isso demanda um reforço da política pública de cuidado com a saúde mental dos servidores da área de segurança pública. Precisamos cuidar de quem cuida da gente. É um ponto que precisa ser melhor trabalhado —  pontuou.


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