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Polícia

Casos de Violência contra mulheres avançam em MG 

Estado registra alta nos feminicídios e crescimento de 32,5% da violência psicológica; Divinópolis adere ao mês da conscientização 

Por Jornal Agora· 5 min de leitura
Casos de Violência contra mulheres avançam em MG 

Jonny Reisle

O início de agosto marca mais uma edição do “Agosto Lilás”, campanha nacional dedicada à conscientização e ao enfrentamento da violência contra a mulher. Em Divinópolis, a mobilização ganha força com uma série de ações promovidas pela Prefeitura ao longo da próxima semana, envolvendo todas as secretarias municipais, instituições parceiras, forças de segurança e representantes da sociedade civil. A iniciativa coincide com um cenário preocupante revelado pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, que aponta aumento de diferentes formas de violência contra as mulheres em Minas Gerais, especialmente da violência psicológica.

Números assombrantes

Segundo o levantamento, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Minas registrou 177 feminicídios consumados em 2025, um crescimento de 4,4% em relação ao ano anterior. O estado concentra 11,3% de todas as vítimas do crime do país, ocupando a segunda posição nacional em números absolutos. Embora os feminicídios tentados tenham apresentado redução de 16,8%, passando para 207 ocorrências, outros indicadores seguem em alta.

O dado que mais chama atenção é o avanço da violência psicológica. Foram 3.994 registros em 2025, um aumento de 32,5% em comparação com o ano anterior, índice quase duas vezes superior ao crescimento registrado em nível nacional. Minas também contabilizou 85.993 vítimas de ameaça, o segundo maior número do Brasil, além de 6.533 casos de perseguição (stalking), crescimento de 22,2%.

Mês conscientizador

É justamente para ampliar esse reconhecimento que o “Agosto Lilás” busca mobilizar a população. Instituída em referência ao aniversário da Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006, a campanha incentiva a divulgação dos direitos das mulheres, fortalece a rede de proteção e estimula a denúncia dos casos de violência.

Ações municipais

Em Divinópolis, as atividades começam no domingo, 2, durante o Campeonato Rural, com uma ação educativa voltada ao público presente. Já na segunda-feira, 3, a programação será intensificada com iniciativas em diferentes pontos da cidade. A partir das 7h, atiradores do Tiro de Guerra participarão de uma palestra sobre o papel dos homens na prevenção da violência contra a mulher. Em seguida, às 8h, todas as 45 Unidades Básicas de Saúde (UBSs) promoverão salas de espera temáticas para orientar usuários sobre direitos, formas de violência e mecanismos de proteção previstos na Lei Maria da Penha.

Na UBS Santo Antônio dos Campos (Ermida), também às 8h, haverá uma programação especial com café da manhã e roda de conversa conduzida por uma assistente social do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). A atividade abordará os diferentes tipos de violência, os serviços disponíveis na rede de atendimento e a importância da denúncia como ferramenta de proteção das vítimas.

Semana recheada

Ao longo da semana, a programação inclui palestras com representantes da Polícia Militar, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), profissionais da educação, psicólogos e especialistas na área jurídica. Também estão previstas rodas de conversa, blitz educativa, ações voltadas aos servidores municipais e uma caminhada de conscientização, marcada para a sexta-feira, 7, data em que a Lei Maria da Penha completa 20 anos.

A prefeita Janete Aparecida, diz que a Semana D de Combate à Violência Contra a Mulher pretende envolver toda a comunidade em uma mudança de comportamento. 

— O enfrentamento à violência não deve ser responsabilidade apenas das forças de segurança ou da rede de proteção, mas de toda a sociedade, por meio da promoção do respeito, da igualdade e da valorização da vida das mulheres — declarou.

Violência mascarada

Especialistas ressaltam que campanhas como o “Agosto Lilás” cumprem papel fundamental na prevenção, principalmente ao informar a população sobre situações que muitas vezes são naturalizadas dentro dos relacionamentos abusivos. Além da violência física, comportamentos de controle, manipulação emocional, ameaças, perseguição e isolamento social podem representar sinais de alerta e exigem atenção.

O psicólogo Wanderson Teixeira, explica que a violência psicológica costuma surgir de forma silenciosa e nem sempre é percebida pela vítima. 

— Este problema está ligado a questões culturais que atravessam gerações. Por isso, é importante ampliar o entendimento sobre o que é violência. A psicológica acontece de forma gradual, muitas vezes disfarçada de brincadeiras, críticas, limitações e desmerecimentos. Aos poucos, esses comportamentos afetam a saúde emocional da mulher e comprometem sua autoestima e autonomia — explicou. 

Denúncias adiadas

As ameaças também aparecem como um dos principais obstáculos para que muitas vítimas consigam romper o ciclo da violência. O medo de represálias e a preocupação com filhos, por exemplo, fazem com que inúmeras mulheres permaneçam em relacionamentos abusivos por longos períodos, retardando a denúncia e aumentando os riscos de agressões mais graves. Sobre as dificuldades para romper o ciclo da violência, Wanderson destaca que o medo exerce forte influência. 

— As ameaças atingem pontos muito sensíveis da vida da mulher. Muitas permanecem no relacionamento por dependência financeira, pelo receio de perder os filhos, pela vergonha da exposição ou pelo medo de não receber a proteção necessária. Tudo isso fortalece o controle do agressor e dificulta a denúncia — reforçou. 

Rede de apoio

Nesse contexto, a informação torna-se uma importante ferramenta de proteção. Ao conhecer seus direitos, identificar comportamentos abusivos e saber onde buscar ajuda, mulheres conseguem reconhecer mais cedo situações de violência e acessar os serviços da rede de apoio, formada por órgãos de segurança, assistência social, saúde e Justiça. Para o psicólogo, campanhas como o “Agosto Lilás” são essenciais para ajudar as vítimas a reconhecerem situações de abuso. 

— A conscientização permite que a mulher identifique ameaças veladas, constrangimentos e outras formas de violência que muitas vezes foram naturalizadas. Além disso, quando há acolhimento e uma rede de apoio fortalecida, aumentam as chances de que ela procure ajuda e denuncie o agressor. Também é fundamental uma mudança cultural para que toda a sociedade participe desse enfrentamento — destaca o profissional.

Discussões abertas 

A Prefeitura reforça que todas as atividades do “Agosto Lilás” são gratuitas e abertas à população. A expectativa é ampliar o debate sobre a violência de gênero, incentivar denúncias e fortalecer a rede de proteção às mulheres. Em um cenário em que os indicadores continuam elevados, especialistas e autoridades defendem que a conscientização permanente é uma das principais ferramentas para reduzir os casos e evitar que a violência evolua para consequências irreversíveis.


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