Depois da alta, café dá trégua ao consumidor
Queda acumulada de 17,20% em um ano é a maior registrada desde o início do Plano Real

Jorge Guimarães
Depois de um longo período de alta, o café começa a dar uma trégua ao bolso dos brasileiros. O preço dele moído caiu aproximadamente 17,20% nos 12 meses encerrados em julho de 2026, segundo dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
O resultado chama atenção por representar a maior redução percentual acumulada em 12 meses desde o início do Plano Real, em 1994. Para o consumidor, a queda significa uma mudança importante no comportamento de um dos produtos mais tradicionais da mesa brasileira.
Motivos
A queda ocorre depois de um período de forte pressão sobre os preços do produto. Nos últimos anos, fatores como condições climáticas adversas, impactos sobre a produção e oscilações na oferta contribuíram para encarecer o café e aumentar o peso do produto no orçamento das famílias.
Agora, com a melhora do cenário de oferta, os preços começam a recuar de forma mais expressiva. A trajetória é acompanhada de perto pelo consumidor, principalmente porque o café está presente diariamente na rotina de milhões de brasileiros.
Cautela
O recuo de 17,20% no preço do café moído representa um alívio para o consumidor, mas o cenário ainda exige cautela. De acordo com o economista Leandro Maia, a manutenção dos preços em patamares mais baixos dependerá de uma combinação de fatores que influenciam toda a cadeia produtiva.
— É importante destacar que a queda observada no preço do café é positiva para o consumidor, mas não significa que teremos necessariamente uma redução permanente. O mercado do produto é bastante sensível às condições de oferta e demanda, questões climáticas e oscilações do mercado internacional — explica.
Segundo o economista, o comportamento da produção nacional será determinante nos próximos meses. Uma safra favorável, com boas condições climáticas e aumento da oferta, pode contribuir para manter os preços sob controle. Por outro lado, problemas climáticos, elevação dos custos agrícolas ou uma eventual redução da produção podem voltar a pressionar os valores.
Maia também chama a atenção para as cotações internacionais. Como o café brasileiro está inserido no mercado global, as oscilações do dólar e dos preços no exterior podem influenciar diretamente os custos e, consequentemente, o valor pago pelo povo nas prateleiras.
— Para o consumidor, o momento é de aproveitar a redução, mas sem imaginar que o café ficará necessariamente mais barato de forma contínua. É preciso acompanhar a produção, os custos e o mercado internacional, porque são fatores que podem alterar rapidamente essa trajetória — avalia Leandro Maia.
Divinópolis
Em Divinópolis, a tendência nacional de queda no preço do café também já é percebida pelos consumidores e representa um alívio para quem precisa controlar os gastos com a cesta básica. Levantamento realizado pela reportagem em redes de supermercados do município mostra que os valores variam consideravelmente de acordo com a marca e o tipo de produto.
Enquanto cafés classificados como gourmet ainda podem ser encontrados na faixa de R$ 31 ou mais, marcas locais e regionais, principalmente em promoção, apresentam preços mais acessíveis. Em alguns estabelecimentos, pacotes de 500 gramas são comercializados entre R$ 17,90 e R$ 25.
Consumidor
Com a queda nos preços do café, consumidores e comerciantes começam a perceber um cenário mais favorável, ainda que o alívio aconteça de forma gradual. Para quem consome a bebida diariamente, a expectativa é positiva. A auxiliar administrativa Juliana Martins comemorou.
— O café faz parte da minha rotina, todo dia. Se o preço cair mesmo, já ajuda bastante no orçamento do mês — disse.
Já o aposentado Mauro Lucio Oliveira destacou a frequência de consumo.
— Aqui em casa não pode faltar. Quando sobe muito, a gente sente. Então qualquer redução já faz diferença — destacou.
Do lado dos estabelecimentos, donos e funcionários de lanchonetes também observam a mudança com cautela.
— Ainda estamos sentindo os reflexos dos preços altos dos últimos anos, mas já começamos a perceber uma leve melhora nos custos. Se continuar assim, dá até para pensar em segurar o preço para o cliente — explicou a gerente de uma lanchonete no centro, Ana Paula Ribeiro.
Já o dono de uma lanchonete de bairro, Marcos Silva, reforçou que o repasse não é imediato.
— Mesmo com a queda no preço do café, outros custos ainda estão altos, como energia e insumos. Mas, aos poucos, a tendência é melhorar e isso pode refletir sim no valor final — explicou.
Forma gradual
Embora a queda no preço do café já seja observada no mercado, o consumidor nem sempre percebe imediatamente toda a redução nas prateleiras. Isso acontece porque o varejo trabalha com estoques adquiridos anteriormente, quando o produto ainda era comercializado a valores mais elevados.
O gestor de Operações do Somar Supermercados, Sérgio Antônio de Oliveira, explica que existe um intervalo entre a queda registrada no preço do grão e o reflexo efetivo no valor pago pelo consumidor.
— Essa redução não acontece de um dia para o outro. O supermercado ainda tem produtos no estoque que foram comprados com preços mais altos. É preciso aguardar a renovação desses estoques para que os novos custos possam ser repassados gradativamente ao consumidor — explica Sérgio.
Segundo ele, o processo de formação de preços no varejo envolve diferentes etapas e, por isso, a queda nas cotações do café precisa de algum tempo para chegar integralmente à nota fiscal.
— À medida que os estoques antigos são vendidos e novas compras realizadas com preços menores, conseguimos repassar essa diferença. É um processo gradual — acrescenta.
A avaliação ajuda a explicar por que podem existir diferenças significativas entre os preços encontrados nos supermercados, mesmo diante de uma tendência nacional de queda. Promoções, marcas, qualidade do produto e condições de compra também interferem diretamente no valor final.
— Para quem acompanha o orçamento doméstico, a expectativa é de que a redução continue sendo incorporada aos preços nas próximas semanas, à medida que o varejo renove seus estoques e consiga trabalhar com custos menores — finaliza o economista.
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