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Economia

Apesar do tarifaço imposto pelos EUA, carne bovina continua cara 

Apesar do tarifaço imposto pelos EUA, carne bovina continua cara 

Jorge Guimarães 

O tarifaço que Donald Trump impôs aos produtos brasileiros de exportação parecia, à primeira vista, um risco para o agronegócio nacional. Muitos economistas previam que a carne brasileira teria dificuldade em chegar ao mercado internacional, o que poderia resultar em sobra no mercado interno e consequente queda nos preços. Porém, a realidade mostrou-se diferente, no Brasil, não sobrou o produto e o consumidor segue enfrentando preços elevados.

Diferente 

O raciocínio parecia simples: se as exportações brasileiras de carne para os Estados Unidos caíssem em razão do tarifaço, naturalmente sobraria produto no mercado interno. Com maior oferta disponível, a lógica indicava que os preços deveriam diminuir, trazendo alívio ao bolso do consumidor brasileiro.

No entanto, a prática mostrou-se diferente da teoria. A demanda externa continuou aquecida, com outros países rapidamente absorvendo a carne brasileira que deixou de ir para os EUA.

Ranking

Os Estados Unidos sentiram diretamente o impacto do tarifaço imposto aos produtos brasileiros. No ranking de importações de carne do Brasil, o país caiu do segundo para o sexto lugar. Apesar da perda de espaço no mercado norte-americano, as exportações brasileiras não diminuíram. Pelo contrário, de janeiro a agosto de 2025, o volume exportado cresceu 34%, puxado pelo apetite de outros parceiros comerciais.

A China, principal compradora, ampliou as aquisições em 41%, consolidando sua posição de destaque. Já o México surpreendeu, registrando crescimento superior a 250% nas importações de carne brasileira, demonstrando a diversificação e a resiliência do setor no cenário global.

Cadeia produtiva 

Para especialistas, os números mostram que o Brasil soube redirecionar sua produção e garantir novos mercados, reforçando seu papel de potência mundial na exportação de proteína animal, mesmo em meio a barreiras impostas por um de seus principais parceiros comerciais.

Para o economista Lázaro Ribeiro, o cenário confirma a força da cadeia produtiva nacional no mercado global. 

— Os Estados Unidos são um parceiro importante, mas não o único. Quando Trump impôs tarifas, outros países ampliaram as compras do Brasil, o que impediu qualquer sobra significativa de produto, neste caso da carne, aqui dentro — explica.

Ele destaca também que o problema dos preços altos está mais relacionado a fatores internos do que externos. 

— Ao mesmo tempo, os custos de produção mantiveram-se elevados e o consumo doméstico não apresentou queda significativa. Assim, o tarifaço teve impacto político, mas pouco efeito prático sobre o consumidor brasileiro —pontuou. 

Consumidores 

Consumidores sentem diretamente o peso dessa realidade. Com os preços da carne permanecendo altos, muitas famílias têm buscado alternativas para equilibrar o orçamento. Alguns optam por cortes mais baratos, outros substituem a carne bovina por frango, ovos ou proteínas vegetais, ajustando suas compras à realidade do mercado.

— A gente esperava que a carne ficasse mais em conta, mas cada vez que vou ao supermercado, os preços estão iguais ou até mais altos. E para não acabar pesando muito no orçamento da família, estamos optando por comprar somente nas promoções ou até mesmo levando cortes mais baratos — relatou a dona de casa Maria Salete da Silva.

Já para o aposentado Eustáquio Ferreira, a situação o levou a diversificar o cardápio.

— Com o preço da carne neste patamar, passei a alterar os pratos utilizando a carne de frango, ovos, e até mesmo utilizando o peixe num prato mais elaborado — disse. 

Do lado do varejo, a situação também preocupa. Segundo Sérgio Antônio de Oliveira, gerente de um supermercado, a alta persistente da carne tem impactado os hábitos de compra. 

— Muitos clientes optam por cortes mais baratos ou até substituem a carne bovina por frango, peixes enlatados, ovos e outras proteínas. A procura continua, mas o consumidor está adaptando seu carrinho de acordo com o bolso — exemplifica.

Ajustes globalizados

O economista ainda ressalta que esse episódio demonstra como o mercado globalizado se ajusta de forma rápida e complexa, muitas vezes contrariando expectativas lineares. 

— Em vez de reduzir preços, a conjuntura internacional reforçou a valorização da proteína brasileira, enquanto o consumidor nacional segue enfrentando dificuldades para acessar o produto – avalia Ribeiro.

Bom para os criadores de gado, que continuam faturando, apesar do alto custo da produção. Mas ruim para quem frequenta o balcão do açougue. 

— A expectativa era de que, com o tarifaço, os preços realmente caíssem. Mas o fato é que, mesmo com algumas pequenas quedas recentes, os valores ainda não compensaram a inflação da carne acumulada no último ano — finalizou. 

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