Família de Thallya Beatriz busca reparação judicial quase dois anos após morte de criança

Elian Ozéias
Quase dois anos após a morte de Thallya Beatriz da Silva Pinto, de apenas quatro anos, na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) Padre Roberto Cordeiro Martins, em Divinópolis, a família da criança segue em busca de respostas e reparação judicial. Nesta semana, os pais ajuizaram uma ação indenizatória contra o Instituto Brasileiro de Políticas Públicas (Ibrapp), gestor da UPA à época, a Prefeitura de Divinópolis e o Estado de Minas Gerais. O valor total do pedido chega a aproximadamente R$ 2,95 milhões.
A ação foi protocolada após a conclusão de uma produção antecipada de provas, autorizada pela Justiça, que culminou na exumação do corpo da criança em 2025. O procedimento foi solicitado diante das dúvidas sobre a real causa da morte. Com a entrega do laudo pericial, que classificou o óbito como de causa indeterminada, os advogados da família entenderam haver elementos suficientes para o ingresso da ação de indenização.
Indenização
Os pais requerem o pagamento de 200 salários mínimos vigentes para cada membro do núcleo familiar, totalizando cerca de R$ 1,62 milhão, além de uma pensão vitalícia mensal equivalente a um salário mínimo, com base no Código Civil. Considerando a expectativa de vida, o valor estimado da pensão chega a R$ 1,32 milhão.
Segundo o advogado da família, Eduardo Augusto, o processo sustenta que houve negligência, omissão e imperícia médica nos atendimentos prestados à criança.
— Sequer a criança foi atendida nas duas ocasiões por médicos com especialidade em pediatria e muito menos procederam diagnóstico dos sintomas e do quadro doentio vivido pela menor — informou.
Atendimento questionado
Thallya Beatriz morreu em 26 de abril de 2024, dois dias após ter sido atendida pela primeira vez na UPA. Em entrevista concedida na época, os pais, Paulo Henrique e Juliana da Silva, relataram que a filha deu entrada na unidade com dor na perna e inchaço no olho, sem febre ou outros sintomas aparentes.
— Disseram que os exames não deram nada, mas passaram antibiótico. Se não tinha nada, por que receitaram amoxicilina? — questionou a mãe.
Dois dias depois, o quadro se agravou. Juliana voltou à UPA com a filha, que apresentava sudorese intensa. Segundo ela, os sinais vitais indicados na triagem estavam normais. Pouco depois, a criança sofreu uma parada cardiorrespiratória e morreu na unidade.
A Declaração de Óbito apontou inicialmente como causa da morte uma crise convulsiva, informação contestada pela família.
— Minha filha nunca teve convulsão — disse a mãe.
Exumação e nova perícia
A ausência de uma autópsia no momento do óbito levou o Ministério Público a solicitar judicialmente a exumação do corpo, realizada em 2025. O procedimento foi autorizado pela Justiça e o corpo encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) de Belo Horizonte, onde permaneceu por nove meses.
O corpo foi liberado justamente no dia em que Thallya completaria seis anos, em julho de 2025, obrigando os pais a sepultarem a filha pela segunda vez.
— Eu revivi toda a dor. Vi minha filha lacrada dentro de um saco. Só eu e o pai dela sabemos o que sentimos — relatou Juliana.
Poder público
Na época da morte, a Prefeitura de Divinópolis divulgou nota de pesar e informou que a criança teria dado entrada na UPA com quadro convulsivo e febril. O Ibrapp afirmou que a menina foi atendida por pediatras e submetida a exames, sem alterações significativas.
A Secretaria Municipal de Saúde instaurou uma sindicância interna, que concluiu não haver falhas na conduta da equipe médica. O caso foi encaminhado ao Conselho Regional de Medicina para ciência.
Novo posicionamento
Diante do pedido da família, a reportagem entrou em contato com a assessoria de comunicação da Prefeitura de Divinópolis, que informou que, até o momento, ainda não foi oficialmente notificada sobre a ação indenizatória ajuizada pela família de Thallya Beatriz.
— Não temos conhecimento da ação. Dessa forma, sem acesso ao processo, não é possível nos manifestarmos sobre o assunto — escreveu.
A equipe também procurou a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, que destacou que se manifestará apenas na Justiça.
— A Advocacia-Geral do Estado informa que irá se manifestar nos autos do processo — ressaltou.
O Agora segue tentando contato com o Instituto Brasileiro de Políticas Públicas (Ibrapp), gestor da UPA Padre Roberto à época dos atendimentos, e aguarda posicionamento.
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
