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Saúde

'Fui discriminada até na área da saúde', diz mulher diagnosticada com Aids há 21 anos

Por Portal Agora
'Fui discriminada até na área da saúde', diz mulher diagnosticada com Aids há 21 anos

Bruno Bueno

Aids, sigla em inglês para Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, é uma doença causada pelo vírus HIV e atinge, em média, cerca de 150 mil brasileiros por ano. Apesar de não existir cura, tratamentos de rotina podem retardar a síndrome e prevenir infecções secundárias. A doença já ceifou a vida de mais de 350 mil brasileiros desde sua primeira epidemia.

Mesmo com os dados alarmantes, quem é portador da doença sofre de outro grave problema: a discriminação. Apesar de ser comprovado cientificamente que o vírus só se propaga por meio de agulhas sujas, sangue não testado e relações sexuais sem proteção, vítimas da síndrome relatam sofrer preconceito e isolamento das pessoas que, sem conhecer a realidade da doença, se afastam com medo de contrair o vírus.

Semelhante a essa situação, uma divinopolitana que convive com a doença há 21 anos relatou à reportagem o enorme preconceito que vivencia até os dias atuais. Com medo de ser reconhecida, ela preferiu não revelar seu nome, bairro e identidade aos leitores do Agora.

— Recebi o diagnóstico em 2000 e já estou com 21 anos de tratamento. Eu sofri bastante preconceito, foi muito difícil. Não pude sair de casa e mudei de lar. Foi muito difícil — explica.

Sem oportunidades

A mulher contou à reportagem que escondeu o segredo por muitos anos. Em um certo dia, quando estava trabalhando em uma residência, ela se cortou e precisou fazer a revelação para não contaminar a patroa.

— Eu trabalhava de faxineira e machuquei no serviço. Por eu ter cortado o meu dedo, saiu muito sangue. Quando minha patroa veio me ajudar, pedi a ela que não encostasse no líquido. Quando ela perguntou, fui obrigada a revelar. Ela contou para várias pessoas e todo mundo me dispensou. Ninguém queria me dar oportunidades de emprego — salienta.

Preconceito

Com o episódio da sua patroa, a vítima sofreu um enorme preconceito. Segundo a mulher, o fato de as pessoas acreditarem que a doença era extremamente contagiosa fez com que ninguém chegasse perto dela.

— Passei muita dificuldade. Eu saía para cortar o cabelo e ninguém me atendia, pois tinham medo de se infectar. Minhas amigas falaram para as vizinhas não irem à minha casa porque a minha doença era contagiosa. O preconceito foi muito grande, porque eu fui uma das primeiras pessoas que contraíram a Aids em Divinópolis — ressalta.

Ela ainda relata que o preconceito e o afastamento das pessoas aconteceram em locais que ela nunca poderia imaginar, como em um hospital. A mulher relatou um episódio que uma enfermeira não quis atendê-la com medo de contrair o vírus.

— O afastamento foi doloroso. Não podia conversar com as pessoas, nem ir à casa de ninguém. Fiquei muito tempo sem cortar o cabelo e fazer a unha. Em fila, tinha que tomar cuidado. Uma vez, em um hospital, a enfermeira disse que não iria me atender porque estava correndo risco. Isso aconteceu apenas quatro anos atrás. Tive muita discriminação na área da saúde — relata.

Depressão

A consequência do enorme preconceito que sofreu das pessoas foi inevitável. A mulher desenvolveu um quadro de depressão e necessita realizar tratamento psiquiátrico até os dias atuais.

 — Na família, entre meu marido e meu filho, não teve discriminação. Mas, por parte das pessoas, foi horrível. Eu tive depressão e trato com o psiquiatra até hoje. Tudo por culpa deles — conta.

Aposentadoria

Sem conseguir emprego pela discriminação que sofre e pelas dificuldades físicas causadas pela doença, a mulher recorreu, em 2016, ao Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) para pleitear o benefício de aposentadoria por invalidez. 

Depois de duas negativas, a vítima entrou na Justiça no fim de 2017 para conseguir a aposentadoria. Após desdobramentos do processo judicial, a mulher finalmente conseguiu a liberação do saque em agosto deste ano. Ela relatou a felicidade de conseguir o benefício depois de cinco anos.

— A aposentadoria foi difícil de conseguir. Eu passei dificuldade, minha família precisou e o benefício não saía. Graças a Deus, tive o direito concedido no mês passado. Recebi o primeiro pagamento no dia 10. Foi maravilhoso, vai me ajudar muito. É muito tarde, mas é um auxílio — relata.

Desabafo

Por fim, a mulher desabafou à reportagem e enviou um recado às pessoas portadoras do vírus. 

— Não desanime. Para não sofrer os preconceitos e humilhações, eu sugiro que as pessoas fiquem em casa. Quando você sai, as pessoas se afastam e falam bobagens. Eu não acho que isso vai mudar, o ser humano é muito difícil. Até na área da saúde eu tive preconceito —  afirma.

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