Idoso é esfaqueado no mês que alerta para o aumento de agressões contra a 3ª idade

Elian Ozéias
Um idoso de 70 anos foi vítima de uma tentativa de homicídio na tarde deste sábado, 21, em Divinópolis. O crime ocorreu no bairro Padre Eustáquio, enquanto o senhor aguardava o ônibus em um ponto na rua Santa Clara. De acordo com o relato da vítima, um jovem surgiu repentinamente e o atacou com uma faca, desferindo golpes na cabeça e no pescoço, enquanto gritava: “Eu vim te matar porque você matou meu irmão”!
O idoso, que estava sentado e enrolava um cigarro no momento da agressão, conseguiu se proteger parcialmente, mas sofreu lesões na região do olho esquerdo e no peito. Socorrido por familiares, foi encaminhado ao Hospital São Judas Tadeu, onde fez sutura, outros procedimentos e foi liberado. A Polícia Militar (PM) iniciou buscas pelo agressor, descrito como alguém que “aparentava problemas psicológicos”, mas até o fechamento desta reportagem, por volta das 15h, o suspeito não havia sido localizado.
O caso choca não apenas pela brutalidade, mas por ocorrer em meio ao ‘Junho Violeta’, mês dedicado à conscientização sobre a violência contra a pessoa idosa. E os números em Divinópolis são alarmantes: apenas nos primeiros cinco meses de 2025, a cidade já registrou 856 casos de agressões contra essa faixa etária, segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Em 2024, foram 2.858 ocorrências – uma média de quase oito casos por dia.
Violência que se esconde
Os dados oficiais, no entanto, podem não refletir a realidade completa. Apenas 96 denúncias foram formalizadas em 2025, o que sugere um grave problema de subnotificação. Muitos idosos têm medo de denunciar agressores que, frequentemente, são familiares ou cuidadores.
— A violência contra o idoso pode ocorrer em qualquer relação de confiança, seja dentro de casa, em instituições de longa permanência ou na comunidade — explica Luana Ersinzon, coordenadora do curso de Direito da Faculdade Anhanguera.
A psicóloga Eloiza Vieira ressalta que a agressão física é apenas a ponta do iceberg:
— Muitos idosos sofrem violência psicológica, abuso financeiro e negligência. Eles internalizam a ideia de que são um peso, o que os torna ainda mais vulneráveis — afirma.
Cultura do descaso
Em uma sociedade que valoriza a produtividade, a velhice muitas vezes é associada à inutilidade. Esse pensamento, segundo especialistas, contribui para a invisibilidade do idoso e para a banalização de maus-tratos.
— Vivemos em um sistema que enxerga o envelhecimento como um problema, não como uma fase natural da vida. Quando o idoso deixa de ser economicamente ativo, passa a ser visto como um fardo — analisa Eloiza Vieira.
‘Junho Violeta’
Criado em alusão ao Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa (15 de junho), estabelecido pela ONU, o ‘Junho Violeta’ busca:
- Conscientizar a população sobre os diferentes tipos de violência (física, psicológica, financeira e negligência);
- Incentivar denúncias por meio do Disque 100 ou delegacias especializadas;
- Promover políticas públicas que garantam dignidade e segurança aos idosos.
A cor violeta foi escolhida como símbolo da campanha por representar respeito e dignidade.
Problema nacional
Divinópolis não está sozinha nessa triste estatística. Em Minas Gerais, somente em 2025, já foram registrados 51.701 casos de violência contra idosos. No ano passado, o número chegou a 132.355. Apesar da aparente queda, especialistas alertam que a redução pode indicar subnotificação, já que muitos idosos ainda temem represálias ao denunciar.
Como quebrar o silêncio?
Para Eloiza Vieira, a solução passa por uma mudança cultural.
— Precisamos escutar os idosos, validar suas dores e garantir que eles saibam que têm direitos. A família, a sociedade e o poder público precisam agir juntos — frisa.
Denuncie
Especialistas reforçam que a denúncia é o primeiro passo para interromper o ciclo de violência. Os canais disponíveis incluem:
– Disque 100 (serviço 24h do Ministério dos Direitos Humanos)
– Polícia Militar (190) e Polícia Civil (197)
– Ministério Público (Promotoria do Idoso)
– Conselho Municipal do Idoso
— É fundamental que vizinhos, amigos e parentes fiquem atentos a sinais como marcas de agressão, mudanças repentinas de comportamento, medo excessivo de determinadas pessoas ou falta de cuidados básicos — orienta Luana.
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