Investigação sobre contratos de R$ 37 milhões leva à prisão de servidores e empresários em Divinópolis

Lucas Maciel
Contratos públicos que somam mais de R$ 37 milhões estão no centro de uma investigação que levou à prisão de dois servidores municipais e dois empresários de Divinópolis, nesta quinta-feira, 12. O grupo é suspeito de envolvimento em fraudes relacionadas à locação de máquinas utilizadas em serviços urbanos da Prefeitura.
A ação integra a operação “Ghost Machine”, conduzida pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) Regional de Divinópolis e da Promotoria de Defesa do Patrimônio Público. A operação contou ainda com participação da Polícia Militar e apoio das Polícias Civil e Penal.
As investigações apuram suspeitas de irregularidades em contratos ligados à Secretaria Municipal de Operações e Serviços Urbanos (Semsur), responsável por parte das atividades de manutenção da cidade, como limpeza de vias, transporte de entulho e outras ações operacionais.
Prisões e buscas
Ao todo, foram cumpridos quatro mandados de prisão preventiva e 14 mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados. As diligências ocorreram em diferentes pontos de Divinópolis nas primeiras horas da manhã.
A Justiça também determinou a indisponibilidade de bens e ativos financeiros, incluindo contas bancárias, veículos, imóveis e outros patrimônios. A medida tem como objetivo garantir eventual ressarcimento aos cofres públicos caso as irregularidades sejam confirmadas ao longo do processo.
Os investigados são suspeitos de envolvimento em corrupção ativa e passiva, fraude em licitações e contratos administrativos e lavagem de dinheiro.
Segundo o Ministério Público, há indícios de que o pagamento de propina relacionado aos contratos analisados possa ultrapassar R$ 2 milhões.
Medições fictícias
As suspeitas estão relacionadas a contratos de locação de máquinas com operador, utilizados em diversos serviços executados pela Secretaria de Operações e Serviços Urbanos.
Nesse tipo de contrato, os pagamentos geralmente são feitos com base na quantidade de horas trabalhadas pelos equipamentos, o que exige controle rigoroso da execução das atividades.
A investigação aponta que parte dos serviços pode ter sido registrada em quantidade superior à efetivamente realizada.
— A suspeita é de que recebiam como se tivessem executado mais do que efetivamente executaram e pagavam propina por isso — afirmou o promotor Marcelo Maciel, durante coletiva de imprensa.
Entre os serviços citados durante a apresentação da operação estão atividades comuns da manutenção urbana, como uso de caminhões-pipa para limpeza de vias e transporte de entulho.
Segundo os investigadores, a apuração busca esclarecer se houve medições infladas ou registros de serviços que não foram totalmente executados.
Valores investigados
Os contratos analisados no inquérito ultrapassam R$ 37 milhões e envolvem empresas responsáveis por fornecer máquinas e operadores para a execução de serviços em diferentes regiões da cidade.
Embora os valores totais dos contratos já sejam conhecidos, ainda não é possível afirmar qual seria o prejuízo efetivo aos cofres públicos. Essa avaliação depende da análise detalhada das medições e da comparação entre os serviços pagos e aqueles que realmente foram executados.
A suspeita, segundo os investigadores, é de que parte dos pagamentos tenha ocorrido com base em informações de execução superiores ao trabalho realizado.
Dinheiro e arma apreendidos
Durante o cumprimento dos mandados judiciais, as equipes apreenderam documentos, celulares, computadores e outros dispositivos eletrônicos, que agora passarão por perícia.
Em um dos endereços alvo da operação, pertencente a um dos empresários investigados, a Polícia Civil encontrou R$ 185 mil em dinheiro vivo, guardados dentro de caixas de sapato.
No mesmo local também foi apreendida uma arma calibre 12, acompanhada de munições.
O material recolhido poderá ajudar os investigadores a compreender melhor a movimentação financeira dos envolvidos e a dinâmica do esquema investigado.
De acordo com as autoridades, as diligências ocorreram de forma tranquila e não houve resistência por parte dos investigados.
Início da investigação
As apurações tiveram início em março de 2025, após uma representação apresentada ao Ministério Público relatando possíveis irregularidades envolvendo contratos da secretaria municipal.
A partir dessas informações iniciais, foram autorizadas medidas investigativas, como quebra de sigilo bancário e telemático, que permitiram aprofundar a análise sobre as movimentações financeiras e a execução dos contratos.
De acordo com os promotores responsáveis pelo caso, há indícios de que as irregularidades investigadas possam ocorrer desde pelo menos 2021, embora ainda não seja possível definir com precisão quando o esquema teria começado.
Investigação pode avançar
Apesar de quatro pessoas terem sido presas nesta etapa, 14 pessoas foram alvo da operação, entre mandados de prisão e de busca e apreensão.
Agora, a investigação entra em uma nova fase, marcada pela análise do material recolhido durante as diligências.
A partir dessa análise, os investigadores pretendem verificar se houve execução parcial dos serviços, medições infladas ou até subcontratações irregulares.
A expectativa é que essa etapa da investigação seja concluída em cerca de 60 dias.
Prefeitura
Em nota divulgada após a operação, a Prefeitura de Divinópolis informou que as investigações tiveram início após denúncia apresentada pelo prefeito Gleidson Azevedo (Novo) e da vice-prefeita Janete Aparecida (Avante) ao Ministério Público.
Segundo a administração municipal, a denúncia foi formalizada depois que a própria Prefeitura identificou indícios de irregularidades e realizou um levantamento interno.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, o prefeito afirmou que levou a documentação às autoridades após a realização de uma auditoria interna.
— Depois que eu fiz uma auditoria e uma sindicância na prefeitura, levei todos os documentos para o Ministério Público — declarou.
A Prefeitura informou ainda que continuará colaborando com as investigações conduzidas pelas autoridades.
Próximos passos
Após o cumprimento dos mandados, os investigados foram encaminhados inicialmente à delegacia e devem ser transferidos para o sistema prisional.
Enquanto isso, o material apreendido será analisado para aprofundar as apurações e esclarecer detalhes sobre os contratos investigados.
O caso segue sob sigilo judicial, o que impede a divulgação de nomes dos investigados ou das empresas envolvidas.
As autoridades reforçam que as investigações continuam e que novas informações podem surgir com o avanço da análise dos documentos e equipamentos apreendidos.
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